quinta-feira, 10 de março de 2011

CAPITAL SOCIAL E MUDANÇA DE VALORES PARA ENFRENTAMENTO DA VULNERABILIDADE JUVENIL NA ÓTICA DOS EGRESSOS DAS PENITENCIÁRIAS DO INTERIOR DO PARANÁ

IV CONGRESSO LATINO AMERICANO DE OPINIÃO PÚBLICA DA WAPOR - BELO HORIZONTE - BRASIL
AT6 - CAPITAL SOCIAL, CIDADANIA E PESQUISA MUNDIAL DE VALORES

CAPITAL SOCIAL E MUDANÇA DE VALORES PARA ENFRENTAMENTO DA VULNERABILIDADE JUVENIL NA ÓTICA DOS EGRESSOS DAS PENITENCIÁRIAS DO INTERIOR DO PARANÁ

Rosana Katia Nazzari
Dione Teresinha Kniphoff
Thais Damaris da Rocha Thomazini


RESUMO: A violência é um sintoma da modernidade e de todas as nações, no entanto, o aumento da violência cometida contra e entre os jovens levou a reações sociais, colocando o foco do problema na juventude diante das conseqüências das intensas mudanças da vida moderna. Assim, busca-se interpretar os dados quantitativos da investigação junto aos egressos das penitenciárias do interior do Paraná, por ser esta população a que povoa os cárceres brasileiros. Notadamente, entender os valores, as motivações e as necessidades destes pode contribuir para fomentar políticas públicas de enfrentamento da violência, da drogatização e reduzir o medo social, fatores que dificultam a colaboração entre os agentes envolvidos e formam obstáculos para a boa governança. O estudo se propõe a verificar o alcance das políticas públicas juvenis para ampliar os índices de capital social e promover o enfraquecimento da vulnerabilidade e da violência no Brasil. Portanto, torna-se necessária a intervenção na realidade juvenil, por meio de projetos e recomendações para elaboração de ações eficazes nas políticas públicas voltadas para a juventude brasileira.
PALAVRAS CHAVE: políticas públicas; interiorização da violência; criminalidade; egressos

I. INTRODUÇÃO

Sem causa, nem atores específicos está no espaço e no tempo, a pulverização e banalização da vida em detrimento dos ditames do mercado real ou imaginário. A contradição imposta pela exclusão, miséria e mudanças de valores advinda da incorporação das novas tecnológicas oportuniza o aumento da violência, do uso indevido de drogas e, principalmente a ausência de redes sociais e institucionais eficazes para superação dos desafios que afetam os jovens brasileiros. Sabe-se que o deslocamento da esfera pública para a privada enfraqueceu de forma substancial as redes de solidariedade e os índices de confiança social e institucional. Este desgaste nas esferas políticas está somado aos desajustes no mercado de trabalho que coadunam com a ideologia da cidadania codificada ou de consumo.
No Brasil, dissemina-se a privatização da violência, com a ampliação das empresas de segurança, grupos, galeras, redes de organizações criminosas, principalmente envolvidas com ilícitos, tais como, o tráfico de drogas e o contrabando, além da truculência da polícia oficial e seu desvio de função em milícias coligadas ao tráfico. Entre tentativas, às vezes limitadas, de compreender o comportamento violento da juventude, particularmente quanto ao seu afastamento das redes sociais tradicionais, e de ir além da perspectiva do senso comum, se inscreve este estudo.
O cenário de violência e criminalidade crescentes nas grandes cidades brasileiras, passa apresentar outra geográfica, e se expande para os municípios do interior. Assim, os temas sobre juventude, políticas públicas, vulnerabilidade e interiorização da violência são urgentes na pauta das pesquisas interdisciplinares das ciências humanas e sociais.
Segundo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2009, p. 3) São Paulo e Rio de Janeiro não são os lugares mais violentos para os jovens brasileiros, em pesquisa que envolveu os 266 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, estas aparecem em 192º lugar e 64º lugar respectivamente. A violência revelada por meio do Índice de Vulnerabilidade Juvenil – IJC (UNESCO, 2010) diagnosticou o grau de exposição de jovens de 12 a 29 anos. “O grau de exposição dessa faixa etária à violência é considerado muito alto em 10 cidades: Itabuna (BA), Marabá (PA), Foz do Iguaçu (PR), Camaçari (BA), Governador Valadares (MG), Cabo de Santo Agostinho (PE), Jaboatão dos Guararapes (PE), Teixeira de Freitas (BA), Linhares (ES) e Serra (ES). Outros 33 municípios tiveram o IJV considerado alto.
O índice de vulnerabilidade juvenil envolve dados socioeconômicos (homicídios, escolaridade, acesso ao mercado de trabalho, renda e moradia, entre outros). Assim, a violência não é só crime, engloba fatores tais como: ausência de escola, pobreza, desigualdade, acidente de trânsito. Destaca-se, porém que a maioria destes jovens tem entre 19 a 24 anos, são homens e negros
Nesse contexto, o presente estudo pretende contribuir para ampliar o campo de estudos sobre os principais problemas que atingem a população infanto-juvenil, assim, procura verificar as motivações que levam muitos jovens a violência e criminalidade no Brasil. Para tal, busca-se entender as motivações que levam os jovens a violência como forma de relacionamento social, nas repostas das entrevistas realizadas com egressos das penitenciárias do interior. Sabe-se que 72% dos presos têm idade entre 18 a 29 anos, em plena idade. Estes fatores mostram uma contradição das políticas públicas que preferem investir em penitenciárias sem infra-instrutura para reinserção social do que em tratamentos de saúde mental para jovens com dependência química e escolas de qualidade que promovam a entrada no mercado de trabalho, além de outros fatores contraditórios.
Conforme pesquisa do CONAPEF (2010, p. 2), sobre o futuro do sistema prisional destacou-se que na América do Sul “tem-se cerca de 750 mil presos, destes, 430 mil estão no Brasil, gerando um custo mensal de 567 milhões de reais. Cada preso custa mais de 1.300 reais mensais.” Por outro lado, observa-se a defasagem em termos de quantidade de policiais federais. “Para uma fronteira continental como a do Brasil, temos apenas 8.600 delegados e agentes quando o mínimo ideal deveria ser de 17 mil, ou seja, praticamente o dobro”.
Além disso, o Brasil é o terceiro país em número de presos no mundo, o Ministério da Justiça – MJ (2010) coloca que até junho a população carcerária está entre a que mais cresce no mundo, registrava-se 494.237 detentos, 44% provisoriamente aguardando julgamento, o país fica atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Para UNDP - United Nations Development Programme (2010), a taxa de presos por 100 mil habitantes subiu 13,3%, comparando com um crescimento populacional de 0,98% em 2009 (IBGE, 2010). Mesmo com a ampliação do sistema carcerário em todo país, a falta de vagas se aproxima de 200 mil. Além do número excessivo de pessoas dentro das penitenciárias brasileiras, segundo o (DEPEN, 2010), o país oficialmente apresenta um déficit de vagas de 194.650.
Neste contexto contraditório imposto pela pobreza e pela exclusão em conjunto com a expansão do capitalismo para as cidades do interior do Brasil, advindos de um processo de globalização e ampliação das novas tecnologias, observa-se o aumento da vulnerabilidade social causada pela violência nas cidades médias e pequenas nas várias regiões do País, a reboque observa-se também, a ausência de redes sociais e institucionais eficazes para promover políticas sociais e públicas apropriadas e conectadas entre as diversas áreas de atuação do governo nas várias esferas decisórias.
Neste sentido, deve-se observar que a interiorização da violência vem conjuntamente com déficit de segurança na fronteira do interior do país, que serve de corredor para o narcotráfico, contrabando e armas, e apresenta-se como fator influente do fortalecimento de redes mafiosas, que em conjunto com gestores públicos corruptos cooptam um exército de infanto-juvenis e demais categorias vulneráveis para a marginalidade e ainda mais exclusão social nas cidades da fronteira do Iguaçu.
Sabe-se que, os jovens ocupam lugar de destaque no mercado capitalista, por serem consumidores em potencial, no entanto os índices de desemprego são maiores entre eles, por sua vez, recebem relevo nos meios de comunicação, notadamente, em noticiários policiais de forma estereotipada, fatores que contribuem para uma pretensa condição juvenil.
Para aprofundamento dessa temática é fundamental observar as interlocuções das dimensões socioeconômicas, culturais e psicobiologias na construção das redes que fomentem a diminuição da vulnerabilidade e violência relacionada aos infanto-juvenis.
Diante disto, o estudo pretende verificar as motivações que levam os jovens a violência e criminalidade no Brasil, notadamente na cidade de Cascavel, situada no Oeste do Paraná, região próxima a fronteira com o Paraguai e Argentina. Além disso, pretende-se entender a dificuldade de se empreender políticas públicas de enfrentamento a interiorização da violência e da criminalidade entre os jovens brasileiros na ótica dos egressos do sistema carcerário em 2011.


2. METODOLOGIA

A reflexão crítica deste estudo foi efetuada em três partes, uma seção de natureza teórica e qualitativa, com o aprofundamento dos conceitos: juventude, políticas públicas, vulnerabilidade e violência e drogas.
A segunda seção apresenta os dados socioeconômicos relacionados ao tema, e faz a relação entre os conceitos e a hipótese central do estudo. A hipótese central é de que as lacunas nas políticas públicas para a população infanto-juvenil, e a dívida histórica que a sociedade e o Estado têm com os jovens não colaboram para delinear um futuro melhor para eles. Além disso, sem uma boa dose de capital social em redes sociais e comunitárias, bom desempenho institucional pelas políticas sociais para a juventude, não será possível criar condições para a diminuição da vulnerabilidade, da violência, uso e tráfico de drogas entre os jovens brasileiros.
A terceira seção aproxima o conceito ao estudo quantitativo com egressos das penitenciárias de município do interior. Entre as 98 entrevistas realizadas em diferentes bairros da cidade com os egressos das penitenciárias, 77,4% são homens, 15,5% são mulheres e 7,0% não responderam. As idades dos entrevistados variam de 21 a 60 anos, mas a maioria tem de 33 a 36 anos. Em relação ao estado civil 11,2% são casados, 33,6% solteiros, 11,2% amasiados, 10,2% separados e 3,0% viúvos. A religião com maior freqüência é a católica com 45%, NS/NR, 16%, evangélico 8,1%, ateu 0,1%. Sobre a cor da pele 13,2% são morenos, 4,0% brancos, 1,0 % pardo, 1,0% negro. Sobre a classe social dos entrevistados, 16, 9 % tem entendimento de pertencer a classe baixa; 9,8% da classe média, nenhum na classe alta, 71% NS/NR.
Diante disto, o estudo se propõe a promover a intervenção nesta realidade juvenil por meio de projetos de empoderamento e recomendações para elaboração de ações eficazes para as políticas públicas voltadas a vulnerabilidade social e violência juvenil.
Para isso, inicialmente, apresenta-se uma análise dos estudos sobre juventude, vulnerabilidade e violência e os debates referentes ao tema, baseado em referências bibliográficas. Na seqüência, discutir-se-á o impacto das transformações tecnológicas na construção da cidadania juvenil no Brasil. Também, utilizam-se artigos atuais sobre o assunto bem como pesquisas de instituições técnicas e cientificas tais como: UNESCO, IBGE, INEP, UNICEF, Ministério da Justiça, Nações Unidas, entre outros.


3. VUNERABILIDADE SOCIAL, VIOLÊNCIA E DROGAS

Na ótica da socialização dos jovens e adolescentes pode-se observar que estes fazem parte de um cotidiano que se utiliza cada vez mais da violência, antes que o diálogo para solucionar suas crises e conflitos, banalizando a violência, que passa a ser vista como normal pelas agências socializadoras, principalmente levada a efeito pelos meios de comunicação em massa. Na ótica psicológica, Endo (2006) destaca que, geralmente o jovem percebe a violência do outro, mas não identifica a violência inconsciente que norteia seu comportamento.
A insegurança e a desconfortável sensação causada pelo medo social levam as pessoas ao espaço privado, distante do espaço público da política, isto concorre para diminuir os laços de solidariedade e os estoques de capital social nas redes e associações de interação pública. O extremo disto é fazer justiça com as próprias mãos, discurso presente no seio das elites brasileiras, que se orgulham de ostentar seus carros blindados, seguranças com técnicas sofisticadas e alarmes monitorados com tecnologia importada.
Os recursos do Estado não são suficientes, sem parcerias “para promoverem a superação da vulnerabilidade e de suas conseqüências, em particular a violência, advoga-se o fortalecimento do capital social intergrupal”. Assim, o capital social pode colaborar com as estratégias coletivas em busca de soluções (ABRAMOVAY, 2002, p. 14). É necessária a mudança da percepção dos gestores públicos sobre a importância das políticas juvenis no Brasil relativas à violência e criminalidade.
Os avanços tecnológicos tornaram a massa de trabalhadores miseráveis, desnecessária e socialmente, um obstáculo. Assim, a exclusão coloca a margem determinado grupo social, fenômeno que pode ser relacionado ao não reconhecimento do outro, rejeição e intolerância as diferenças. Aproximando o outro do não ter direitos e expulsão da esfera social, segundo Castel (1995).
Na história observam-se o extermínio de diversos grupos, os índios, os judeus. Os excluídos modernos são um grupo de pessoas desnecessárias, com demandas políticas próprias e incomodas e se constituem em grave ameaça para ordem social e mercadológica vigente. Podendo, portanto, ser fisicamente eliminados.
As desigualdades sociais e problemas econômicos contribuem para que os desequilíbrios, diferenças e frustrações apareçam associadas à negação dos direitos, dos ideais de democracia (justiça, liberdade, igualdade, solidariedade, respeito às leis e bens públicos).
O conceito de vulnerabilidade social aparece juntamente com o conceito de pobreza, turbulentas condições socioeconômicas, fragilidade das instituições políticas e ruptura do tecido social. A violência não esta separada da vulnerabilidade social e estão imbricadas como principais efeitos da dificuldade de acesso as estruturas de oportunidades sociais, econômicas, culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade.
A violência é um fenômeno social em expansão no mundo moderno, atinge governos e populações em todos os lugares do planeta. Suas formas são as mais diversas vai desde a violência simbólica até a agressão física. A violência é tão discutida hoje quanto o futebol: em cada cabeça brasileira uma tática considerada a mais eficaz. Ações governamentais, políticas públicas, atuação de associações, justiça e sistema penitenciário na visão dos cientistas dedicados ao estudo acadêmico do tema. Explora-se ainda, questões como controle social, juventude, gangues, violência na mídia, tráfico de drogas e crime organizado. Aborda também a discriminação racial e a desigualdade social na cultura da violência.
A violência tem caráter multifacetado, atinge a dimensão física, psíquica, emocional e simbólica dos indivíduos das diversas camadas sociais. Segundo Abramovay et alii. (2002) as diversas formas de violência podem ser assim sintetizadas: a) Violência direta: refere-se aos atos físicos que resultam em prejuízo deliberado a integridade humana, são homicídios (assassinatos, chacinas, genocídios, crimes de guerra, acidentes de transito e massacres civis); b) Violência indireta: coerção e agressão que causa prejuízo psicológico e emocional; e c) Violência simbólica: que envolve as relações de poder entre os indivíduos ou grupos sociais (interpessoais e institucionais), que cerceiam a liberdade de ação e pensamento
Pode-se acrescentar uma quarta forma, que tem relação com a violência simbólica, que é a violência cultural, que paira as crenças e valores transmitidos aos indivíduos por uma determinada cultura ou religião. Ela pode ser passada pela tradição ou criada pela mídia.
Este último poderia colaborar para explicar o porquê os dados estatísticos apontam como grupo social mais atingido os jovens de sexo masculino. O homem sempre foi visto como o mais forte e detentor da força, tanto na tradição, quanto nos filmes vendidos no mercado midiático e consumidor.
Segundo Pinheiro citado por Abramovay at al. (2002, p. 23), “haveria uma violência de caráter endêmico relacionada a assimetrias sociais que se traduzem em autoritarismo de várias ordens, como o subdesenvolvimento territorializado.


4. DIMENSÃO SOCIOECONÔMICA E POLÍTICA DA VIOLÊNCIA

No Brasil a tendência da literatura com abordagens diferentes é de associar a violência ao desemprego e a pobreza em uma perspectiva econômica das dinâmicas sociais. Bem como, justifica-se em função das crises econômicas, das desigualdades sociais e ausência de democracia. A explicação sobre a pobreza e sobre as desigualdades sociais pode ser considerada uma variável, mas não somente esta. Segundo Pinheiro citado por Abramovay, (2002, p. 230):

[...] haveria uma violência de caráter endêmico relacionada a assimetrias sociais que se traduzem em autoritarismos de várias ordens como o subdesenvolvimento territorializado (ex: das populações no Norte e no Nordeste e de áreas urbanas e rurais nas demais regiões); impunidade, corrupção, abusos das forças policiais, principalmente contra os pobres e os não-brancos; as violações dos direitos das pessoas presas pobres; discriminação racial.

Assim, entre 1980 e 1997, houve um aumento dos crimes de sangue, no período pós-ditadura. Naquele período cresceu a oferta de armas de fogo, o narcotráfico e a crise econômica. No entanto, reconhece-se a maior preocupação das autoridades e dos governantes com o cumprimento da lei e das normas de direito internacionais e humanos, setores que possuem muitas lacunas para serem resolvidas relacionadas às garantias institucionais e a cidadania.
Na década de 1990, o foco dos estudos sobre violência volta-se para o Estado e a mídia, relacionados mais ao combate do trabalho escravo, a violência contra as crianças e adolescentes, meninos e meninas de rua, prostituição infantil, a tortura a discriminação de raça e gênero, e conseqüente defesa dos direitos humanos.
Por fim, na virada do século Peralva (2000), traça o cenário da violência no Brasil na virada do século e destaca como principais fatores: 1) aumento do acesso as armas; 2) a juvenilização da criminalidade; 3) aumento da violência policial contra os pobres da periferia; 4) ampliação do mercado de drogas; 5) cultura individualista e de consumo (cidadania codificada), expectativas frustradas de ascensão social diante dos valores ditados pelo mercado.
Na dimensão política a violência pode ser observada como uma forma negativa da expressão juvenil em sociedades modernas que, não tem propiciado a visibilidade dos jovens e a satisfação de suas demandas. Assim, pode se destacar que na dimensão econômica a maioria dos jovens mais de 30% não encontram respostas satisfatórias na recepção pelo mercado de trabalho.
Na dimensão socioeconômica da violência salienta-se que o declínio das oportunidades de trabalho, o aumento da violência e da pobreza sobre o expressivo contingente de jovens na América Latina estão levando a ausência de perspectivas em relação ao futuro. A maioria dos jovens são vítimas de situações sociais precárias, sem possuírem as condições materiais básicas para suprir suas necessidades, e, portanto, para garantir a construção da cidadania.
Assim, as pesquisas e debates interdisciplinares colocam o tema juventude na pauta das ciências no início do século XXI e incitam a imediata intervenção na realidade juvenil no continente de repercussão coletiva.
As políticas públicas são improvisadas, sazonais e desarticuladas entre si, “Há necessidade de um enfoque multidimensional devido à multiplicidade de fatores que interagem “formando complexas redes causais” (WIRSIG; WERTHEIN, 2002, p. 9).
O estudo sustenta que a violência sofrida pelos jovens é desencadeada pela vulnerabilidade social e ausência de oportunidades disponíveis nos campos da saúde, educação, trabalho, lazer e cultura. Assim, as condições socioeconômicas desfavoráveis fomentam o aumento e da criminalidade. Nesta direção, observa-se que as políticas públicas devem ser continuas e permanentes e não como são fragmentadas e parciais. Nesta direção, segundo a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana - Ritla (2008, p. 1) no terceiro Relatório de Desenvolvimento Juvenil, versão 2007,

[...] que realizou um extenso cruzamento de dados do IBGE e dos ministérios da Educação e da Saúde e chegou a algumas conclusões alarmantes. Por exemplo, segundo o relatório, nada menos que 53% dos 35 milhões de jovens entre 15 e 24 anos no país não freqüentam salas de aula. Além disso, 19% deles não trabalham nem estudam, uma porcentagem grande, que fica maior ainda quando se analisa apenas as classes mais pobres: 34%!

É preciso investir no combate a vulnerabilidade social da juventude pela ampliação dos estoques de capital social, fatores que requerem mudanças na percepção dos gestores públicos para formular políticas sociais que potencialize suas habilidades laborais concomitantemente, ao empoderamento dos jovens, na construção de uma sociedade mais justa e sem violência. No entanto, para fins do estudo proposto é necessário destacar os demais fatores causais da violência, tema do próximo item.


5. AS DIMENSÕES DA VULNERABILIDADE E VIOLÊNCIA JUVENIL

As dimensões de vulnerabilidade estão associadas aos recursos materiais ou simbólicos (ativos), as estruturas de oportunidades no mercado, estado e sociedade e as estratégias de uso dos ativos. Podem ser estratégias de defesa, de ataque ou adaptação a mudanças no conjunto de oportunidades no grupo social.
Altas taxas de desemprego, segundo dados da Organização Internacional do trabalho o desemprego atinge 20% dos jovens entre 15 a 24 anos na América Latina. Outro problema relacionado está na ausência de qualidade dos que possuem empregos, pois, a maioria atua em postos de trabalho com baixas remunerações e principalmente no mercado informal de trabalho, característica que vem associado à falta de qualificação, a deserção escolar e a exigência de experiência na maioria dos postos de trabalho (ABRAMOVAY at al. (2002, p. 54).
A inserção precária no mercado de trabalho leva a vulnerabilidade dos jovens, quanto ao sucesso no campo educacional o que não lhes garante um futuro melhor. Situação idêntica em todos os países da América Latina. “No Brasil, por exemplo, 36% dos jovens de 13 a 17 anos de idade trabalham em alguma atividade e, destes, 61% trabalham na área rural” (ABRAMOVAY at al., 2002, p. 49).
Entre outros fatores, segundo investigações, os jovens têm um imaginário associado ao prazer em atividades recreativas, assim, “o lazer, o esporte, a arte e a cultura entram com um papel fundamental na formação da visão de mundo, na construção da identidade e no enfrentamento dos tabus culturais” segundo Minayo et al. citados por Abramova at al. (2002, p. 54). Neste setor, as políticas públicas não são satisfatórias e nem compensatórias, e a maioria dos jovens não tem estas práticas no seu cotidiano.
Outro fator alarmante que acomete os jovens é a gravidez na adolescência e o crescimento da AIDS entre jovens vinculam-se a pobreza e falta de informações (ausência de normas, restrições financeiras, vergonha e outros). Lacunas das políticas públicas que não investe em amenizar os problemas da atividade sexual prematura que vem associada ao baixo rendimento escolar e gravidez precoce, e risco de contrair a AIDS.
Assim, a vulnerabilidade dos jovens está na falta de acesso aos capitais materiais básicos (educação, trabalho, transporte, saúde, entre outros), bem como, a baixa qualidade do ensino público e a segmentação educacional e socioeconômica nas escolas.
Para investigar a percepção da violência, foram entrevistados 5.182 jovens de 12 a 19 anos pelo Datafolha (2009). A pesquisa foi realizada em 31 municípios de 13 Estados, destes, 31% admitiram ter facilidade para obtenção de armas de fogo, além disso, 64% deles estão expostos a algum risco ou história de violência e costuma ver pessoas (não policiais) portando armas. Para 11% dos jovens a violência dói considerada comum, metade já presenciou violência policial e 88% responderam ter visto pessoas assassinadas, e 8% viram pessoas próximas vítimas de homicídios.
Diante deste cenário conflituoso é importante apresentar mecanismo de estudos sobre esta temática, para tal, Figueira e Fontes citados por Abramovay at al. (2002, p. 45), “desenvolveram um quadro de referência onde é possível posicionar os jovens segundo quatro situações típicas relacionadas à educação e trabalho. São elas: a) Jovens que estudam e não trabalham (dependem economicamente dos seus pais, não pobres e solteiros. Estes desempenham o papel social de “adolescentes típicos”); b) Jovens que só trabalham e não estudam (abandonam o sistema escolar e configuram “papéis de adultos”); c) Jovens que trabalham e estudam (vivenciam uma situação de transição entre a vida jovem tradicional e a vida adulta, são os jovens “transitórios”); e d) Jovens que não trabalham e nem estudam (perdem posições estruturais no mundo juvenil sem conquistá-las no mundo adulto, são os “isolados”)
Em relação ao gênero percebe-se que, a taxa de escolarização feminina permanece mais elevada que a dos homens, em 1999 o percentual de mulheres que concluíram o segundo grau é 2,9% a mais que o masculino, segundo Abramovay at al. (2002, p. 40). Em quatro anos em um grupo de 07 a 14 anos de idade, o percentual de meninos fora da escola declinou de 10,7% para 4,7%, enquanto o de meninas diminuiu de 8,8% para 3,9%.
Na ótica da saúde, segundo pesquisas da Unicef citada por Abramovay at al. (2002, p. 53), “mais de 550.000 jovens são portadores de HIV/Aids na América Latina e Caribe. Destes, a grande maioria (69%) é formada de jovens do sexo masculino”, apesar do crescimento da doença entre as mulheres, conhecida como femininização da Aids. Os homens são estimulados pela cultura a desenvolverem a sexualidade desde cedo, sem orientações pertinentes sobre os perigos que podem acontecer.
Na dimensão cognitiva os estudos sobre o tema da violência urbana apresentam-se na pauta e agenda dos estudiosos, no sentido de compreender o fenômeno da geração e ampliação da violência entre os jovens nas cidades brasileiras. Para tal, Endo (2005) observou por meio de análise psicanalítica a formação e normalização das redes de violência urbanas que,

[...] a violência urbana está tradicionalmente ligada à antropologia urbana e à sociologia. Entretanto, cada vez mais se torna fundamental compreender as marcas subjetivas que essa violência deixa nos habitantes das grandes cidades. Sem essa visão é muito complicado pensar em políticas públicas de médio e de longo prazo. Há uma série imensa de medos e traumas conscientes que perduram na experiência do cidadão das cidades violentas (ENDO, 2006, p. 1).

Sobre os dramas coletivos na área de segurança, detectou uma posição reativa, alguns buscam sem clareza formas de extermínio (pena de morte, redução da maioridade penal e segregação ampliada das classes excluídas). Isto vem delineando uma grave distorção cíclica servindo de base para o endurecimento das políticas de segurança pública.
Isso é visto nas polícias ou nas práticas de encarceramento, que não respeitam a Lei de Execuções Penais. Esse é um processo que esquenta o caldo, tornando o problema da violência definitivamente enraizado nas grandes cidades (ENDO, 2006, p. 1).

Faz-se necessário apontar alguns caminhos para a solução do problema. “Um dos caminhos positivos é o trilhado pelo Fórum em Defesa do Jardim Ângela (bairro pobre localizado na Zona Sul de São Paulo)”, esta experiência pode ser considerada um [...] movimento de resistência eficaz em conseguir reestruturar uma rede social totalmente dilacerada pela violência que leva pessoas a ficar dentro de casa com as portas trancadas. De alguma maneira, o que esses movimentos fazem é tornar o espaço público interessante e agradável, ocupando as ruas com diversas atividades. [...] O espaço público em São Paulo está degradado. A mensagem que o cidadão paulistano recebe, sobretudo, as classes mais empobrecidas, das periferias, é “Vire-se. Contrate um segurança privado. Pague um guarda. Blinde o seu carro. Tranque-se em sua casa”. Essa mensagem, ao ser repetida praticamente a vida toda, deixa uma marca muito forte.
Para Marin (2002), na teoria freudiana detecta-se que a psicanálise aponta para violência é determinante da subjetividade enquanto fundadora da civilização. A cultura fez do homem um herdeiro e cúmplice de um crime, apesar de negado por todos. Os conflitos e a contradição do complexo de Édipo são resgatados na construção da subjetividade das pessoas. Para Marin (2002), a questão a violência funda e modela a subjetividade perdida na racionalidade das sociedades modernas.
Segundo Teixeira e Dalgalarrondo (2008) a relação entre transtorno mental grave e violência é muito complexa e, não obstante os avanços na metodologia utilizada em pesquisa psiquiátrica, o assunto continua a gerar vários debates, freqüentemente porque existe um intervalo de tempo considerável entre o crime e a avaliação adequada dos sujeitos que os cometeram, incluindo seu estado mental, diagnóstico e circunstâncias ambientais.
[...] a literatura sobre os transtornos mentais graves e a violência apresenta dificuldades metodológicas, em virtude das avaliações diagnósticas imprecisas, da presença de comorbidades (particular uso/abuso de substâncias psicoativas) e das variações culturais na percepção e na construção do que seja de fato ato criminoso, assim como a falta de precisão na definição da própria violência (TEIXEIRA; DALGALARRONDO, 2008, p. 2).

O que se sabe é que, a violência leva a impotência e vulnerabilidade social, que é um desafio moderno para a compreensão humana. O conhecimento científico, as novas tecnologias, as habilidades, dons e talentos humanos, que segundo Kunzler e Conte (2005), construídos desde períodos remotos da história humana não são suficientes para se entender as facetas da violência no início do século XXI. Os autores fazem uma interação dos estudos de Freud e Einstein sobre a guerra e a violência para pensar soluções para diminuir o medo social e individual da violência urbana. Desta maneira, educação e trabalho são dimensões fundamentais para o desenvolvimento dos jovens como membros produtivos da sociedade.


6. RELAÇÃO ENTRE A VIOLÊNCIA E DROGAS

Aproximadamente um quarto da população mundial usa algum tipo de droga. No Brasil, a motivação para o uso de substâncias ilícitas foi investigada pela Fiocruz. “Para cada ano a mais que se passa na prisão, a chance de usar cocaína aumenta em 13%. [...]” A conclusão do estudo revelou que o ambiente carcerário, o uso de álcool, de maconha e o tempo de cumprimento de pena são fatores estimulantes para o uso de cocaína na prisão (CARVALHO citada por COELHO, 2008a, p. 6).
Observou-se que, os usuários de cocaína na prisão apresentaram maior freqüência de terem sido jovens infratores, de terem visitado alguém na prisão, de serem reincidentes no crime e de já terem cumprido maior parte da pena. “O uso de cocaína na prisão também esteve associado ao uso de outras drogas, como álcool, maconha e tranqüilizantes, ao consumo simultâneo de diferentes substâncias entorpecentes e à história de DST.”

[...] De forma geral, os fatores de risco para o uso de drogas estão mais ligados a características individuais dos adolescentes. Alguns estudos sugerem que o cigarro e o álcool funcionam como ponte para um progressivo envolvimento com drogas mais pesadas. Outros mostram que adolescentes que usam com freqüência drogas mais leves (como maconha) não necessariamente irão usar as mais pesadas (como cocaína). Especialistas falam em uma relação de probabilidade e não de causalidade (CARVALHO citada por COELHO, 2008a, p. 7).

Na esfera familiar, o risco do uso de drogas entre os adolescentes está associado, de forma combinada, a famílias desestruturadas e desunião interna dos membros, ausência do envolvimento maternal, indisciplina, permissividade, falta de motivação para estudos, absenteísmo na escola e o mau desempenho escolar, entre outros. A existência e o fácil acesso do uso das drogas na comunidade também podem ser apontados como fator facilitador.
É nesse grupo - o de pessoas de 10 a 19 anos - que as manifestações da violência provocam maior impacto. Adolescentes e jovens são os que mais morrem por conseqüência de agressões e são também os que mais cometem atos de violência. Além do uso de álcool e drogas, outros comportamentos e situações de risco relacionados à violência juvenil são a participação constante em brigas, o porte de armas, o cultivo da masculinidade violenta e a vida em comunidades com alto índice de criminalidade e baixo capital social. Dados de 2004 do Ministério da Justiça mostram que, entre os adolescentes internados no sistema socioeducativo brasileiro, 94% são homens, 76% têm entre 16 e 18 anos, 60% são afrodescendentes, 87% não concluíram o ensino fundamental e 6% são analfabetos, 51% estavam fora da escola quando cometeram o ato de infração e 66% provêem de famílias com renda inferior a dois salários mínimos. O consumo de drogas é alto entre os internos, 86% e divide-se entre maconha (67,1%), álcool (32,4%), cocaína (31,3%) e inalantes (22,6%) (CARVALHO citada por COELHO, 2008a, p. 8).
.

Segundo Coelho, (2008a, p. 8), Assim, “no âmbito da família, é importante o apoio dos pais, o monitoramento e o estabelecimento de normas para comportamento sociais, incluindo-se o uso de drogas.” Entre os dispositivos de proteção para o uso das drogas pode se evidenciar as características individuais, tais como: auto-imagem positiva e capacidade de lidar com problemas de forma ativa. Os adolescentes que possuem objetivos e crenças positivas no futuro apresentam probabilidade menor de usar droga.
O uso de drogas passa ser uma das principais causas de mortes e prisões dos jovens brasileiros. Assim, observou-se a correlação entre taxas de mortalidade por homicídios, violência policial e indicadores socioeconômicos e demográficos. Os resultados indicam que uma ação policial centrada na violação de direitos humanos básicos não é a melhor resposta para enfrentar a violência urbana.


7. PUNIÇÃO, DIREITOS HUMANOS E VIOLÊNCIA POLICIAL

Em pesquisa realizada na cidade de São Paulo, destaca-se que, os distritos com número maior de vítimas fatais de violência policial estão relacionados com os que apresentam concentração ampliada de homicídios e demais desvantagens sociais: baixa escolaridade, alta densidade habitacional falta de qualidade de serviços públicos (PERES, 2008).
Para os estudiosos, as altas taxas de homicídios não estão diretamente vinculadas a pobreza ou condições de vida, são uma combinação de desvantagens sociais que caracterizam as áreas periféricas. Assim, a desigualdade social e a sobreposição de carências podem mostrar as diferenças encontradas na distribuição do risco de morte por homicídios nos espaços urbanos.

[...] Como não existem dados oficiais sobre a violência e os direitos humanos no Brasil, a pesquisa se pautou no banco de dados do NEV, que é parte do projeto Monitoring human rights violations. O banco de dados busca informações sobre todos os casos de execuções sumárias, linchamentos e violência policial noticiados nos principais veículos impressos do Estado de São Paulo.“Como não há dados oficiais sobre a violação de direitos humanos no Brasil, a imprensa constitui uma preciosa fonte de informação. O número de casos de ocorrência de violência policial noticiados na imprensa pode ser considerado um indicador da qualidade da atuação policial”.


A atuação violenta da polícia não se distribui de forma igual na população, bem como as taxas de mortalidade por homicídios. As taxas de mortalidade por homicídio são mais elevadas nos distritos com maior número de vítimas fatais de violência policial. A pesquisa apontou ainda que, que ação policial dura e violenta não apresenta resultados eficazes de resposta ao problema da violência urbana, pode desencadear mais violência.
Diante disto, pode-se colocar que, a solução do problema do crime e da violência deve envolver mudanças na gestão das políticas de segurança pública, deve-se valorizar a fixação dos policiais nas áreas de trabalho e promover sua aproximação da comunidade.
O consenso é de que a violência não um problema de segurança pública, mas deve envolver outras esferas da administração pública e da sociedade civil organizada. Além disso, a falta de confiança nas instituições policiais e de segurança pública são entraves para superação do medo e da insegurança da comunidade. Esta relação se revela na atuação violenta e arbitrária da polícia, fator que causa o afastamento e a desconfiança da população em relação à polícia e, desta forma, as pessoas não atuam em parceria com a mesma, o que, de certa forma retroalimenta o crime e a violência.


8. VIOLÊNCIA NO BRASIL

No Brasil, dissemina-se a privatização da violência, com a ampliação das empresas de segurança, grupos, galeras, redes de organizações criminosas, principalmente envolvidas com ilícitos, tais como tráfico de drogas e contrabando.
A violência no país aumentou consideravelmente nos últimos 25 anos. As mortes por homicídio, maior marcador de violência para os cientistas, cresceram 115%. Compreender as razões pelas quais esse fenômeno ocorre e o impacto do mesmo na saúde e na qualidade de vida da população são objetivos do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), ligado à Fiocruz. (COELHO, 2008b).

Segundo Soares citado por Reynol (2008b, p.1) “A cada ano, cerca de 130 mil pessoas perdem a vida no Brasil por causa dos mais diversos tipos de violência.” Atribui-se as responsabilidades pelo problema não somente ao poder público, mas também ao cidadão e até à comunidade acadêmica. Segundo ele, o conhecimento científico tem um impacto importante na redução dos índices de violência. Existe uma lacuna de estudos sobre o tema e relacionados ao Brasil ou à América do Sul. Para o autor, o preço dessa omissão, segundo ele, é maior do que as vidas tiradas anualmente, pois ainda é preciso considerar os feridos e as demais seqüelas deixadas pela violência.
Os jovens são os mais afetados pela expansão da violência no Brasil, principalmente os homens. “As mortes por causas externas afetam desproporcionalmente os jovens na faixa etária de 15 a 24 anos”, segundo Escossia citado por Hughes (2009, p. 2).
Segundo IBGE (2009), os assassinatos, os suicídios e os acidentes de trânsito são responsáveis por 67,5% das mortes de homens e por 34,1% de mulheres. Houve queda nos índices masculinos e elevação dos índices femininos comparando-se com a pesquisa de 2002 na mesma faixa etária.
O indicador de mortes violentas de jovens (provocadas por assassinatos, acidentes de trânsito ou suicídios) aumentou de maneira generalizada em todo o país, entre 1991 e 2002. “No Estado de São Paulo aumentou em 51% (233,95 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes”. Observa-se que a situação é desoladora: de acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o campeão mundial em número de homicídios, “com uma pessoa morta a cada 12 minutos, ou um total de 45 mil por ano. Com 3% da população mundial, o Brasil responde por 13% dos assassinatos. Em 20 anos, a taxa de homicídios cresceu 230% em São Paulo e no Rio de Janeiro” (HUGHES, 2009, p. 3).
A violência desvela as contradições da desigualdade social presentes na sociedade brasileira. Segundo Hughes (2009), as desigualdades têm a ver com a polarização social devido à concentração da renda e pela ausência histórica do Estado nas áreas pobres e desassistidas. A violência tem afastado as expectativas de ampliação da qualidade de vida para uma parcela significativa da juventude brasileira. Especificamente no que diz respeito à violência na escola, pesquisa realizada pela UNESCO (2009) identificou que: “[...] existe violência em 83,4% das escolas brasileiras. Os furtos ocorrem em 69,4% delas. Cerca de 60% disseram ocorrer roubo em sua sala de aula, 37% declara que já foi furtado e 69% não sabe a razão”.
Um caso que comoveu todo País em 1998 foi o assassinato do índio pataxó Galdino, por jovens de classes altas em Brasília. Este fato rendeu estudos importantes sobre a violência no País. “[...] Em direção a cidadania e à alteridade social: como a sociedade representa e trata as diferenças sociais, raciais, culturais e os preconceitos existentes na elaboração das identidades – o eu e os outros” (WAISELFISZ, 1998, p. 121). Assim, pode-se refletir sobre os estereótipos sugeridos pela mídia de que a vulnerabilidade vinha dos pobres, negros vindos das periferias das cidades.
Em 2010, teve-se uma amostra da ineficiência do Estado punitivo no caso da situação das favelas do Alemão e da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro que segundo Belchior citado por Moncau (2010), é “mais um capítulo de um processo que vem sendo recorrente: o Estado matando a serviço da burguesia brasileira. E mata um segmento da população que não por acaso é maioria, somos nós, negros. Existe um processo em curso de genocídio da população negra”.
Outro tópico colocado por Moncau (2010) é o encarceramento em massa, símbolo do Estado penal revela as péssimas condições das penitenciárias, a criminalização da pobreza e a ampliação aumento da população encarcerada, que revela a classe social e raça vitimas da do endurecimento da repressão do Estado.

Não só o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo (247 presos para cada 100 mil habitantes), ficando atrás somente dos EUA e da China, como recentemente tem televisionado ao vivo e a cores um genocídio nas favelas cariocas a mando do governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, com o consentimento do governo federal, legitimado pela mídia hegemônica e aplaudido pelas classes média e alta. Se em alguns lugares as forças armadas praticarem ações contra a população, tanques de guerra subirem as ruas e ao menos 51 pessoas serem assassinadas pelo aparelho militar é considerado estado de exceção, no Brasil a naturalização da opressão e do massacre do Estado à população pobre chega a níveis alarmantes (MONCAU, 2010, p.1).

A mídia construiu um espetáculo aplaudido pelas classes sociais abastadas “Quando a TV filma descamisados, pretos, de chinelo, correndo do fuzil da polícia militar atirando de cima de um helicóptero, esse genocídio fica escancarado” (MONCAU, 2010, p. 1).
No Brasil o genocídio acontece no cotidiano da população que não tem acesso as condições materiais básicas de sobrevivência, tais como: saúde, educação, trabalho digno e oportunidades. E, onde muitas vezes predomina o racismo e o preconceito pelos jovens negros das classes desfavorecidas. Assim, tem-se nas prisões brasileiras “uma versão do apartheid, tendo em vista a utilização da política pública de encarceramento em massa dos jovens como principal instrumento do Estado para o enfrentamento da violência e da marginalidade, para a “na preservação do patrimônio privado e como forma de controle e contenção social, ocultando a barbárie produzida pelo sistema social vigente”. Sabe-se que esta realidade não é exclusiva do Brasil, o ressalta-se que por ser um país em que, recentes casos de violência policial e tortura são recorrentes em várias cidades e que,

[...] o Estado de bem-estar social nunca foi uma realidade concreta, o Estado penal intensifica-se, assumindo uma dimensão mais perversa. “As prisões brasileiras caracterizam-se pelo terror, torturas, maus-tratos, enfim, brutais violações dos direitos humanos dos presos e seus familiares”. O extenso documento perpassa, entre outras questões, por um breve histórico dos anos 2000 como o desaparecimento e assassinato pela polícia de mais de 500 pessoas em maio de 2006 sob a justificativa de confronto com os “ataques do PCC”, ou os 431 homicídios em 2008 classificados como “resistência seguida de morte”. O relatório da ONG internacional de direitos humanos Human Rights Watch afirmando que “a execução extrajudicial de suspeitos se tornou um dos flagelos das polícias no Brasil” também é mencionado. De acordo com dados oficiais da própria Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, do primeiro trimestre de 2009 ao primeiro trimestre de 2010, a taxa de ocorrências policiais que acabaram em homicídios registrados como “resistência seguida de morte” aumentou 40% (MONCAU, 2010, p. 1).

Neste sentido, por meio da prática da tortura, do extermínio da população negra e pobre, os direitos humanos são constantemente violados pelo Estado penal, pelas milícias privadas, e pela ausência de políticas públicas efetivas para a juventude.
Apesar das iniciativas da sociedade civil e dos movimentos sociais e organizações civis, tem-se um longo caminho a trilhar para promoção da defesa dos direitos humanos e articular ações conjuntas de denuncia aos massacres e opressões à população realizadas pelo Estado brasileiro. População que em sua maioria tem sentimentos de medo e fobia social.
Na pesquisa desenvolvida por Waiselfisz (1998), na cidade de Brasília, observou-se que as famílias se encontram perplexas e despreparadas para compreender e responder aos problemas da juventude. A escola assume papel instrumental prepara o jovem para aquisição de capital humano para o mercado de trabalho, dando pouca ênfase para a construção de uma visão mais crítica dos valores da modernidade. Fatores que segundo Nazzari (2006) apresentam notada ausência de valores cooperativos, coletivos, universais e compartilhados.
A lacuna na construção de redes associativas, comunitárias e sociais não contribui para o fortalecimento da identidade e para ampliar o compromisso dos jovens com a sociedade, autodisciplina e autocontrole a partir de um conjunto de valores éticos e universais.
Em geral, os jovens são vistos como um problema, um risco ou uma anomia “os aborrecentes”. Os programas públicos para os jovens no Brasil são em geral dispersos em múltiplas áreas e ministérios e são associados às crianças, principalmente das classes populares, apresentam as seguintes características: a) Volta-se para o atendimento dos adolescentes em situação de risco social, ou infratores; b) Visa principalmente à diminuição das dificuldades de integração; c) Capacitação profissional para inserção no mercado de trabalho; e d) Preocupa-se com a melhoria na saúde, especificamente, com DST/AIDS, gravidez na adolescência e violência intrafamiliar.
Assim, segundo (WAISELFISZ, 1998, p. 134), “fatores individuais, grupais, culturais, sociais, econômicos e políticos conjugam-se na explicação de cada situação concreta”. Entre os fatores gerais observa-se: disponibilidade de armas, cultura criminosa, desorganização da comunidade e áreas de extrema privação. Entre os fatores de origem na família, observa-se que,
A dinâmica e estabilidade familiar têm um papel relevante nos comportamentos dos jovens. Neste campo, constituem-se em fatores de risco: Deficiências e limitações na dinâmica familiar, como falta de expectativas claras sobre o comportamento dos jovens, punições severas ou inconsistentes, falta de interesse ou acompanhamento das atividades dos jovens; conflitos familiares; envolvimento familiar em atividades violentas e/ou criminosas (WAISELFISZ, 1998, p. 137).

Na escola, Waiselfisz (1998) aponta que as deficiências e vazios no processo de socialização são fatores que influência na reprodução da delinqüência juvenil. Assim, observa-se que a vida moderna tem levado a necessidade de autodisciplina e de respostas autônomas, evidenciam-se as falhas da escola em ampliar a segurança, a identidade pessoal e os compromissos sociais entre os jovens. Outro fator de risco é o convívio do jovem com comportamentos anti-sociais, pois ficam propensos a reproduzir tais ações e atitudes delituosas.
Entre as características pessoais, pode se destacar, a ausência de autocontrole dos impulsos e a procura constante por sensações e emoções novas, para aumentar a adrenalina.
As estratégias de controle da violência são eficientes em situações normais, mas esta perdendo sua eficácia com o aumento da mesma, com o pessimismo, sentimento de impotência, desconfiança generalizada e descontentamento social. Assim, questionam-se os fatores que levam ao risco social. As formas tradicionais apelam para as sanções, punições, tratamento e reabilitação dos jovens, quando o problema já se instalou. Assim, tratam-se os efeitos, sem buscar alternativas plausíveis para suas causas. Neste sentido, o item a seguir procurar verificar a percepção dos egressos sobre a questão da violência e criminalidade crescentes no país, a fim de apontar políticas públicas oportunas para o enfrentamento da vulnerabilidade junto aos jovens no Brasil.

9. VIOLÊNCIA E CASTIGO EM CASCAVEL

Segundo Ramão (2010), na análise comparativa sobre o aumento dos crimes violentos à pessoa e contra o patrimônio público entre os anos de 2003 e 2005 na cidade de Cascavel/PR, pode-se observar a influencia dos índices de adensamento populacional, padrão construtivo e renda per capita dos bairros da cidade, como causas principais do aumento da violência e da criminalidade, bem como, a ausência de planejamento e o aumento populacional. A autora observa que, de 1991 a 2000, período houve aumento na renda de R$ 276,52 para R$ 347 ao mês, porém em contrapartida a desigualdade social se elevou. A concentração da renda apontada pelo índice de Gini sinalizou crescimento de 0,57 para 0,59.
Conforme dados da PM (Polícia Militar), nos últimos três anos os crimes contra a pessoa se concentraram nos bairros da região norte da cidade, como Brasmadeira e Tarumã, onde há maior concentração populacional, baixo padrão construtivo e renda per capita reduzida.
Sobre o perfil do crime em Cascavel pode-se observar dois momentos importantes, marcadamente nas décadas de 1960 a 1970, quando as disputas por terra geravam violência, e a década de 1970, com a ampliação da modernização conservadora da agricultura, os grandes proprietários agrícolas passaram a incorporar nos seus patrimônios as pequenas propriedades agrícolas. Com o ciclo da soja, e expansão dos latifúndios produtores de soja para exportação, os colonos derivados da agricultura familiar vieram residir na periferia urbana, com baixa infraestrutura e saneamento básico, representados na ausência do Estado. Estes elementos coincidiram com a elevação do índice de desemprego brutal e o aumento da criminalidade. Outro fator que incide sobre a ampliação da criminalidade em Cascavel é ineficiência das políticas públicas de educação, saúde, educação, formação profissional e incentivo para as atividades comunitárias causam ampliação da erosão do tecido social.
Além disso, a discriminação e a falta de perspectivas têm, igualmente, peso sobre a delinqüência e marginalização. Bem como, a ausência de políticas públicas de investimentos nestes setores necessários para o desenvolvimento regional tem influência decisiva no comportamento da população juvenil, que recebe o impacto de frustração em relação a conquista de espaços no mercado de trabalho, e leva os jovens para a busca por alternativas marginais, tais como o narcotráfico e o contrabando de produtos do Paraguai.
Segundo dados da PM (2010), sobre a geografia dos crimes violentos em 2005, pode se elencar os seguintes bairros: Interlagos (239); Centro (175); São Cristóvão (125); Floresta (122); Santa Cruz (106); Brasília (103); Santa Felicidade (94); Cascavel Velho (90); Periollo (82); Morumbi (78); Alto Alegre (59); Brasmadeira (59); Guarujá (59); Cataratas (53); Cancelli (50); entre outros. Sobre os crimes contra o patrimônio por bairro, no ano de 2005 foram registradas as seguintes ocorrências: Centro (1.525); São Cristóvão (445); Parque São Paulo (284); Interlagos (273); Santa Felicidade (249); Universitário (238); Santa Cruz (226); Alto Alegre (219); Cascavel Velho (193); entre outros.
Observa-se assim, que o local com índices elevados de crimes é o centro da cidade, visto que, o comércio, sistema bancário e demais serviços concentra-se neste local, com maior fluxo de pessoas e onde predomina a maior parte das atividades econômicas do município, atraindo assim, os vulneráveis sociais a caminho da marginalidade.


10. PESQUISA COM EGRESSOS EM MUNICIPIO DE CASCAVEL

Uma das variáveis relevantes para se apontar os índices de violência relaciona-se a baixa escolaridade, neste sentido, o presente estudo confirma dados de outras investigações sobre o tema, tais como os dados levantados pelo Instituto Ethos (2010) na pesquisa Retrato de Foz do Iguaçu. O estudo aponta que, o sonho de freqüentar a escola e ingressar em uma universidade é distante para boa parte dos jovens de Foz do Iguaçu. Estes são encontrados carregando ou vendendo mercadorias das lojas do Paraguai do que nas escolas e bibliotecas. Em Foz, 47% dos adolescentes de 16 e 17 anos estão fora da escola; e 76% dos que têm 18 a 24 anos também não estudam. Neste sentido, observa-se que a não freqüência na escola pode deixar os jovens suscetíveis à criminalidade e atividades ilícitas, envolvendo o contrabando. Na Figura 1 a seguir, destaca-se os baixos índices de escolaridade da população carcerária em Cascavel.

Figura 1 – Índices de escolaridade dos egressos.

Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Como se observa na Figura 1 acima, 50% dos entrevistados possui apenas o ensino fundamental até a 4.a série, apresentando baixos índices de escolaridade, 7% de analfabetos, índice considerado elevado para as políticas educacionais, 36% fizeram o ensino médio até 8.a série e 7% concluíram o ensino médio.
Pode-se considerar que a ausência e evasão escolar tenham conseqüências nas vidas dos egressos, pois a pesquisa apontou que, 46% dos egressos entrevistados cometeram o primeiro crime antes dos 18 anos, 50,7% depois dos 18 anos e 2,8% NS/NR. Estes índices justificam a população pesquisada, que por falta de incentivo e oportunidade das políticas públicas, realidade social de miséria e exclusão e desencanto pelo histórico dos pais que trabalham toda a vida e tem padrões de vida aquém dos exigidos pela sociedade de consumo. Esta realidade os jovens não querem para eles e por isto são facilmente cooptados pelas organizações criminosas e passam a não apostar mais na escola e no trabalho como condições para melhorar sua qualidade de vida. Observa-se que este desencanto dos jovens com a realidade pode ser constatado nos tipos de crime que cometem. A maioria dos entrevistados respondeu que a causa da detenção está relacionada às drogas, porte de armas, roubo ou furto, entre outros. Sobre qual o tipo de crime cometido a Figura 2 revela que:

Figura 2 – Tipificação criminal

Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Os casos de furto (30%) e roubo (34%) podem estar vinculados ao desemprego, falta de oportunidade, mas também a dependência química e desencanto com o sistema político e econômico. Assim os egressos preferem vias alternativas, que os aprisiona nas poucas instituições em que se tornam visíveis para o Estado e para a sociedade, a reclusão, como se destaca a Figura 3 a seguir, permanecem um tempo considerável nas prisões 31% permanecem presos por mais de cinco anos, um tempo desperdiçado considerando que apenas 12% do sistema carcerário têm algum tipo de atividade concreta de ressocialização para a cidadania e mercado de trabalho. Sobre o período de reclusão destaca-se a Figura 3 a seguir:


Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Sobre os motivos que levaram a criminalidade aparece em primeiro lugar às drogas e o álcool, em segundo as dificuldades financeiras e grupos de amigos. Entre os entrevistados 30% foram reincidentes e 60% mais de uma vez. Esses dados descortinam as dificuldades de ressocialização dos presos e a ineficácia do sistema prisional brasileiro, sobre isto os dados da Figura 4 são reveladores:
Figura 4 – Credibilidade do sistema penitenciário

Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Sobre a existência de violência no presídio 57% responderam que sim, 39% responderam que não e NS/NR 1,4%. Tendo em vista que o sistema prisional prevê a reinserção do preso na sociedade temos dados reveladores sobre atividades de formação, escolaridade e aprendizagem 83% responderam que não fizeram nenhuma atividade no presídio, 14% responderam que sim, 3% NS/NR. Sobre as modalidades de atividades praticadas 67% NS/NR, 1,4% fizeram atividades de ensino, 2,8% artesanatos, 8,4% praticaram esportes.
Diante disto, pode-se destacar que a ausência de uma boa governança local combinada com a elevada taxa de homicídios e arbitrariedade policial favorece a ampliação da violência. Outro fator observado nas áreas violentas está na carência de profissionais do setor pública e a alta rotatividade desses profissionais, fatores que interferem na qualidade dos serviços prestados, que ficam sem continuidade. Um exemplo são os tipos de violência praticados nas prisões como se destaca na Figura 5 a seguir:
Figura 5 – Tipologia do crime em Cascavel


Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Os tipos de violência cometidos são maiores entre eles, destes 32% NS/NR, 32% refere-se a abuso de autoridade por parte dos carcereiros e policiais, 19% foram submetidos a espancamentos e torturas, 25% responderam outros tipos elencados na Figura 5 acima. Ao mesmo tempo em que, na Figura 6, os entrevistados (85%) manifestam que aceitariam apreender uma profissão enquanto estiverem presos.

Figura 6 – Aceitação de atividades dentro da prisão



Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

A maioria (85%) dos entrevistados aceitaria aprender uma profissão na prisão, mas as investigações mostram que somente cerca de 12% das prisões tem algum tipo de atividade preparatória para o mercado de trabalho, este fator é determinante para a reinserção social do egresso, como se destaca na percepção dos mesmos na Figura 7.

Figura 7 – O sistema favorece a reinserção social?
Fonte: NAZZARI; KNIPOFF (2011).

Os egressos encontram dificuldades de reinserção social, mesmo que queiram saem da prisão despreparados para o mercado de trabalho que exige cada vez mais habilidades e prepado do indivíduo. Assim, as lacunas das políticas públicas nesta área não colaboram para que o futuro seja melhor para eles.

11. CONCLUSÕES PRELIMINARES

As políticas de segurança pública são importantes, mas não suficiente. O processo de aprendizado deve ser retomado, assim como o envolvimento da comunidade, a humanização, a ética. As ações repressivas geram mais violência e repressão e ampliam os índices de criminalidade. O problema não está mais nas mãos da polícia, pois é dever do Estado aprimorar mecanismo para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Perceber a juventude nessa dimensão torna-se fundamental para quem vislumbra contribuir com um futuro melhor para eles. Não deixar esvaziarem-se os sonhos da juventude e os seus anseios por um mundo melhor equivale a orientar, incentivar e socializá-la para o envolvimento na esfera pública.
Diante disso, torna-se fundamental a existência de políticas públicas visando promover a prevenção da marginalização e da exclusão de parcela da população infanto-juvenil no Brasil, ou seja, como uma proposta de prevenção e de qualidade que se preocupe efetivamente com a reintegração dos jovens e com a ampliação de oportunidades de reinserção social. Segundo Reynol (2008, p. 1), as políticas envelhecem e precisam ser renovadas. Como exemplo do processo de obsolescência mencionou o código de trânsito brasileiro de 1961, que reduziu constantemente os acidentes fatais até o fim da década de 1970, quando o número de ocorrências se estabilizou. “Quando um novo código de trânsito foi adotado, em 1997, o número de mortes caiu dramaticamente, mais uma vez. Foram mais de 4 mil vidas salvas somente no primeiro ano de implantação”.
Diante disso, torna-se fundamental a existência de políticas públicas visando promover a prevenção da marginalização e da exclusão de parcela da população infanto-juvenil no Brasil, ou seja, como uma proposta de prevenção e de qualidade que se preocupe efetivamente com a reintegração dos jovens e com a ampliação de oportunidades de reinserção social. Pois não resolve ter dados se não houver ações de governo. Pois as políticas são pode não ser percebidas de imediato por parte da sociedade é sutil, embora façam muita diferença. Segundo Reynol (2008, p. 1), as políticas envelhecem e precisam ser renovadas. Como exemplo do processo de obsolescência mencionou o código de trânsito brasileiro de 1961, que reduziu constantemente os acidentes fatais até o fim da década de 1970, quando o número de ocorrências se estabilizou. “Quando um novo código de trânsito foi adotado, em 1997, o número de mortes caiu dramaticamente, mais uma vez. Foram mais de 4 mil vidas salvas somente no primeiro ano de implantação”.
Notadamente, os jovens devem ser pensados como atores com os quais é possível estabelecer uma relação dialógica, pois a complexidade do tema violência requer ampliação dos espaços de discussões e pesquisas.
Entre as propostas de alternativas para conter a violência no Brasil, Waiselfisz (1998) coloca a necessidade de construção de uma rede nacional de luta contra a violência e pela paz, onde se estrutura uma rede de informações dirigida ao público, sobre programas públicos e privados. Alternativas que promovam as formas de fomentar projetos de combate à violência em suas diversas formas (drogas, abuso sexual, violência infantil, adolescentes, grupos minoritários, entre outras) e sobre o acesso aos programas, removendo as barreiras que impedem o conhecimento dos interessados na promoção de projetos de inserção social e política dos jovens. Para tal, deve: Localizar instituições e programas e envolver as agências de socialização (famílias, grupos de amigos, associações, igrejas e escolas), para desenvolver estratégias preventivas de redução dos fatores de violência. Associar o esporte, a mídia, a cultura a educação, capacitar profissionais, promover debates nas escolas sobre cidadania, direitos humanos, violência, discriminação social e drogas. Pois, as cidades do interior estão despreparadas para lidar com está nova realidade e com seus novos visitantes e suas expressões.


12. REFERÊNCIAS

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Políticas junto aos jovens: Capital Social, educação e empoderamento

CAPITAL SOCIAL, EDUCAÇÃO E EMPODERAMENTO NAS
POLÍTICAS JUNTO AOS JOVENS NO BRASIL

Rosana Katia Nazzari
Rute Vivian Angelo Baquero


RESUMO: A análise das consequências da globalização sobre a juventude mostra-se distinta nas diferentes regiões e países, a pesquisa pode mostrar em que aspectos ou efeitos das políticas podem e devem intervir em uma forma útil e produtiva. No campo político, apesar dos avanços promovidos pelo processo constitucional, é cada vez maior descontentamento e o sentimento de frustração observado em uma fração significativa da população jovem com as novas democracias. Isto levanta várias questões conjunturais sobre o futuro dos países latino-americanos, bem como sobre as possibilidades de criar regimes democráticos socialmente reintegrados na região. O estudo do tema sobre as políticas para a juventude pode contribuir para definir, a partir de diferentes perspectivas: idade, etapa do desenvolvimento, gênero, etnia e status social, os incentivos a ações estratégicas de políticas pró-activas, tendo em vista o "empowerment" de todos os jovens no Brasil e a resolução de problemas instrumentais, incidindo principalmente sobre os jovens desfavorecidos ou vulneráveis nas diferentes regiões.

PALAVRAS-CHAVE: Capital Social. Empoderamento. Política de Juventude. Brasil.


ABSTRACT: The analysis about the consequences of globalization on youth are very dissimilar in the different regions and countries, research can show, on which aspects or effects policy could and should intervene in a useful and productive way. In the political field, in spite of advancements promoted by the constitutional process, an ever-growing discontent and feeling of frustration was observed in a significant fraction of its youth population with the new democracies. This raises numerous conjectural questions about the future of Latin Americans, as well as about the possibilities of establishing democratic regimes socially reintegrated in the region. The subject of youth policy and to contribute to define, from different perspectives: age, developmental stage, gender, ethnicity and social status. Furthermore incentive pro-active policy strategy, aiming at the “empowerment” of all young people in Brazil and problem solving instrument, focussing mainly on disadvantaged or vulnerable young people in different regions.

KEY-WORDS: Social capital. Empowerment. Youth Policy. Brazil.



I. INTRODUÇÃO

Este estudo tem por objetivo examinar os mecanismos da socialização política que poderiam orientar e contribuir na diminuição da violência urbana e no aumento do empoderamento da juventude por meio de políticas públicas na área da educação, para ampliar as redes positivas de capital social, o bom desempenho institucional e a governança.
Observa-se presentemente, que os jovens utilizam cada vez mais a violência, antes do diálogo, como forma de pressão, para solucionar suas crises e conflitos, bem como no encaminhamento de suas demandas.
Banalizada, a violência passa a ser vista como normal pelas agências socializadoras, normalização principalmente levada a efeito pelos meios de comunicação em massa. Na ótica psicológica, Endo (2006) destaca que, geralmente, o jovem percebe a violência do outro, mas não identifica a violência inconsciente que norteia seu próprio comportamento.
A insegurança e a desconfortável sensação causada pelo medo social levam as pessoas a se retirarem para o espaço privado, distante do espaço público da política. Isto concorre para diminuir os laços de solidariedade e os estoques de capital social nas redes e nas associações de interação pública. O extremo disto é fazer justiça com as próprias mãos, discurso presente no seio das elites brasileiras, que se orgulham de ostentar seus carros blindados, seguranças com técnicas sofisticadas e alarmes monitorados com tecnologia importada.
Sem parcerias privadas os recursos do Estado não são suficientes para fazer frente à vulnerabilidade e a violência. Em razão disso, “para promoverem a superação da vulnerabilidade e de suas conseqüências, em particular a violência, advoga-se o fortalecimento do capital social intergrupal.” A interação com outras instituições, secretarias e ONGs é importante para assim, agregar crenças e valores ampliando os índices de capital social nas escolas e consequentemente, na população juvenil. Desse modo, a construção do capital social pode colaborar com as estratégias coletivas em busca de soluções (ABRAMOVAY, 2002a, p. 14).
Segundo a mesma autora, é necessária a mudança da percepção dos gestores públicos sobre a importância das políticas sociais junto aos jovens, bem como é necessária a percepção, dos administradores das empresas e do setor privado sobre sua responsabilidade social (ABRAMOVAY, 2002b).
Sabe-se que o deslocamento da esfera pública para a privada enfraqueceu de forma substancial, as redes de solidariedade e de confiança social e institucional. Este desgaste nas esferas políticas da democracia está somado aos desajustes no mercado de trabalho do capitalismo, desajustes que coadunam com a ideologia neoliberal da cidadania codificada ou de consumo. Como destaca Misse (2006), os jovens são desmotivados, pelo histórico de exclusão de seus pais e, por essas razões, deixam de procurar espaço e oportunidades no mercado de trabalho e na escolarização.
Neste contexto contraditório, imposto pela pobreza e pela exclusão em conjunto com a ampliação e a sofisticação das novas tecnologias, observa-se o aumento da vulnerabilidade social causada pela violência, pelas drogas e pela ausência de redes sociais e institucionais eficazes para promover políticas sociais e públicas apropriadas e conectadas entre as diversas áreas de atuação do governo (NAZZARI, 2006ª).
A juventude, na vida humana, é um período bastante especial na vida de cada jovem, tendo em vista as mudanças e as transformações envolvidas, ou seja, as diferentes variáveis que influenciam no seu processo de crescimento, de natureza emocional-psicológica, física, biológica e social.
Os jovens são submetidos às pressões dos grupos sociais e assim vão construindo mudanças na personalidade, justamente neste período em que a personalidade tem oscilações entre comportamentos infantis e adultos. O mundo adulto, que antes protegia o jovem quando criança, passa agora a cobrar maturidade, segundo as características físicas recém adquiridas, sem compreender a desigualdade no desenvolvimento do sujeito que ora se apresenta como adulto, ora como criança (PEGO, 2005).
Na passagem da vida infantil para a adulta aparecem os conflitos, pois as cobranças da sociedade se acirram e se faz necessário, ao jovem, tomar iniciativas, ter novas posturas frente a determinadas situações da vida, desligar-se da família, firmar novos laços afetivos, enfim ter responsabilidades individuais, sociais e institucionais.
Assim, esses jovens não encontram, em nossa sociedade, um espaço em que se possam expressar, espaço em que possam exercer seus direitos, tirarem suas dúvidas, verem suas ansiedades sanadas e, ainda podendo buscar respostas para as suas demandas. Eles compõem uma parcela de excluídos sociais, pois sobre eles incidem restrições do ponto de vista econômico, bem como, não possuem representatividade política suficiente, especialmente, no processo de conquista por políticas públicas que lhes digam respeito.
A exclusão e a miséria geram a violência, que hoje é responsável pela terceira causa de morte no país, atingindo principalmente os jovens na faixa de 18 a 29 anos. Os jovens são, ao mesmo tempo, as vítimas e os autores da violência.
Para reverter esse panorama, é preciso que se ofereça aos jovens alguma perspectiva de futuro, perspectiva que tem de começar no processo de socialização na família e, principalmente, no componente de pertencimento a uma comunidade. Imbuída desta lógica, a escola como importante agência de socialização, pode alavancar uma educação que vá além de mero adestramento técnico para uma com salário digno. Enfim, à instituição escola cabe oportunizar o crescimento juvenil em um ambiente saudável, ambiente protegido contra acidentes de homicídio e de trânsito, bem como precavido contra doenças relacionadas à dependência de substâncias psicoativas e comportamentos marginais de risco.
Ações públicas são urgentes, pois, segundo Queiroz, Chaves e Mariano (2001), a população jovem do mundo tem aumentado significativamente, sabendo-se que mais de 85% dos jovens do mundo vivem em países em desenvolvimento e, no Brasil, estão 50% dos adolescentes e jovens da América Latina. Assim faz-se necessário traçar programas eficazes para esta parcela da população.
Os direitos ao atendimento integral aos jovens estão estabelecidos em leis como: Constituição Federal de 1988, Lei Orgânica da Saúde, Norma Operacional de Assistência à Saúde n.o 01/2002, Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disso, esses direitos de atendimento integral aos jovens já estão alinhavados no Programa de Atenção à Saúde do Adolescente do Ministério da Saúde. Sabe-se, no entanto, que essas políticas estão sendo implantadas de modo muito incipientes em algumas cidades do país. Alguns programas são contemplados pela urgência em implantá-los, tais como: Programa Atenção ao Adolescente em Conflito com a Lei, ou ainda, são relacionadas aos adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
As atividades e as ações desenvolvidas junto aos jovens são realizadas em parcerias com diversas áreas técnicas do serviço de saúde, tais como: saúde da mulher, saúde mental, saúde da pessoa com deficiência, saúde do trabalhador; educação, do esporte e outros. Acredita-se que outro fator que dificulta as ações em prol do jovem e que atrasa ainda mais a realização e efetivação de políticas juvenis está associado à ausência de profissionais com disponibilidade para atuar junto a essa população específica, especialmente no campo psicoterapêutico, terapêutico, educacional e do desporto.
No entanto os jovens podem, porém, contribuir na construção de alternativas para os problemas sociais que enfrentam, especialmente nos países em desenvolvimento. Para isto, é necessário tenham espaços para falar, e reivindicar, e acima de tudo, para ter seus direitos assegurados.
Observa-se que os jovens possuem uma pré-disposição para as atividades comunitárias, no entanto, não encontram ecos favoráveis nas dimensões individuais, sociais e institucionais. Decorre, pois que, possuem baixos índices de capital social e se acham em condição de fragilidade nas redes de cooperação. A fragmentação das políticas públicas juvenis e o isolamento de propostas em áreas e em setores específicos e sem conexão com uma política global de empoderamento estabelecida em parceria com o governo e sociedade civil, essa fragmentação e esse isolamento não permitem vislumbrar uma política efetiva para a juventude no Brasil.
Sendo assim, somente se for construída uma possibilidade de compreensão do meio social, político, econômico, ecológico e cultural é que se poderão promover iniciativas para a melhora da condição juvenil no Brasil. Nesse cenário, este estudo propõe o seguinte objetivo geral: Verificar os desafios das políticas públicas juvenis para promover alternativas que promovam o empoderamento dos jovens brasileiros diante do quadro de vulnerabilidade, de violência e de exclusão social. Para construir as configurações do estudo, como objetivos específicos apresentam-se os seguintes: a) identificar as políticas públicas de enfrentamento para os problemas que afetam os jovens brasileiros; b) elencar os programas relacionados à educação dos jovens no Brasil para empreender políticas públicas de empoderamento;


2. METODOLOGIA

O desenvolvimento deste estudo focalizou-se em duas dimensões; uma seção de natureza teórica e qualitativa, com o aprofundamento dos conceitos: políticas públicas, educação, violência, drogas, juventude, empoderamento e capital social.
Uma segunda dimensão, de natureza quantitativa e explicativa, por meio da análise de dados estatísticos, com o objetivo de examinar a dimensão das políticas públicas para os jovens no Brasil. Ali foram examinados os dados socioeconômicos relacionados ao tema, buscando estabelecer relação entre os conceitos e a hipótese central do estudo. A hipótese central é a de que, sem políticas sociais para a juventude, não será possível criar condições para o empoderamento e a para diminuição da violência, do uso e do tráfico de drogas entre os jovens brasileiros.


3. POLÍTICAS PÚBLICAS JUNTO A JUVENTUDE

As políticas públicas devem ser compreendidas como um conjunto de ações que são coordenadas com objetivo público, envolvendo um diálogo entre o Estado e a sociedade civil na proposição, na formulação, no acompanhamento e nas avaliações das políticas junto a juventude.
A discussão sobre a questão dos jovens e a institucionalização de políticas públicas de juventude só recentemente avançou no Brasil, apesar dos esforços da Organização Iberoamericana da Juventude (OIJ), a partir dos anos 1990, de colocar o tema nas agendas governamentais. “Grande parte desse esforço deve-se à visibilidade conquistada pelos jovens, nos processos de democratização, ocorridos na América Latina na década de 80” (KERBAUY, 2005, p. 193).
Ao traçar um panorama do tratamento governamental dado às temáticas relacionadas aos jovens no Brasil, panorama como se faz neste texto, observa-se que não resultaram, de fato, em políticas públicas, mas num conjunto de programas geralmente desconexos, focalizando grupos de jovens que compartilham determinada condição, tratados quase sempre de forma estereotipada.
Mesmo com a “preocupação mais sistemática dos governos brasileiros, a partir dos anos 1990, em formular e programar políticas específicas voltadas para os jovens”, a mobilização para discutir uma Política Nacional de Juventude somente ocorreu em 2004 e 2005, visando elaborar um “Plano Nacional de Políticas Públicas que contemplasse e aprofundasse as questões que afetavam os jovens e um Estatuto dos Direitos da Juventude”. Os governos, ao conceberem políticas de juventude como políticas sociais setoriais destinadas a determinados tipos e realidades, enfim, ao utilizarem de forma limitada a noção de políticas públicas de juventude, nada mais fazem do que, na verdade, criar políticas de governo, uma vez que nesses moldes, “as políticas de juventude implantadas caracterizam-se por ser reparatórias e compensatórias, em vez de realizarem valores e objetivos sociais referentes ao período juvenil, a fim de promover o desenvolvimento e a construção da cidadania nos jovens” (KERBAUY, 2005, p 194).
Um importante referencial sobre a infância e a adolescência no Brasil é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Desde sua publicação, em 1990, passou-se a considerar crianças e adolescentes como cidadãos em desenvolvimento, ancorados numa concepção plena de direitos. A juventude não surge, no entanto, nesse contexto, como protagonista com identidade própria, uma vez que parece reforçar a imagem do jovem como um problema, especialmente em questões relacionadas à violência, ao crime, à exploração sexual, à drogadição, à saúde e ao desemprego. A partir dessa concepção limitada, os programas governamentais procuraram apenas, e nem sempre com sucesso, minimizar a potencial ameaça que os jovens parecem representar para a sociedade. Por conseguinte, a construção de políticas públicas de juventude esbarra na falta de uma agenda que inclua, de fato, as temáticas e os problemas juvenis, e que também contemple os jovens como participantes efetivos desse processo, ou seja, das políticas públicas das quais serão beneficiários.
As políticas públicas adotadas, em busca de integrar socialmente o jovem, percorrem como que uma única via de mão única: incentivam programas de ressocialização vinculados à educação não-formal, por meio especialmente da organização de oficinas ocupacionais, da prática de esportes, da arte e de programas de capacitação profissional, “que muitas vezes não passam de oficinas ocupacionais, ou seja, não logram promover qualquer tipo de qualificação para o trabalho” (ABRAMO, 1997, p.26).
Uma análise preliminar da questão-alvo aponta para a construção de programas ordenados tematicamente e executados a partir de determinados critérios de focalização e de seletividade da população. “Nesse esquema, corre-se o risco de confundir políticas de juventude com a institucional idade da juventude, ficando as políticas de juventude fora do contexto ou ilhadas em relação às políticas sociais” (BANGO, 2003, p. 49). Assim para (KERBAUY, 2005, p 198), “[...] poderíamos acrescentar: e produzindo programas de governo e não políticas públicas”.





4. POLÍTICAS DE JUVENTUDE NA AMÉRICA LATINA

A formulação de políticas para juventude na Europa e nos Estados Unidos foi marcante no decorrer do século XX e esteve aliada à criação de instituições governamentais de atendimento específico ao público-alvo. Na América Latina, a preocupação com os jovens e com políticas orientadas para a juventude ganhou destaque a partir da década de 1970, estimulada por alguns organismos latino-americanos e mundiais (tais como a CEPAL e a ONU) e governos europeus (como o da Espanha, que promoveu iniciativas de cooperação regional e ibero-americana). Pesquisas realizadas mostraram que esta preocupação começou antes, na década de 1950, considerada como o momento de inclusão dos jovens aos processos de modernização, por meio de políticas educativas.
Os dados estatísticos mostram que é a partir desse período que se processa a admissão maciça de crianças, de adolescentes e de jovens nos ensino primário e médio, tendo o Estado como instância definidora da formulação e da execução dessas políticas. O investimento em educação foi a principal política para jovens na busca de incorporação social das novas gerações. Na década de 1950, o investimento em educação constituiu um mecanismo importante de mobilidade e de ascensão social. Com o tempo, essa estratégia perdeu importância devido à deterioração da qualidade de ensino. Nos Estados latino-americanos, nesse mesmo período, a ocupação do tempo livre, pelos jovens, era incentivada, criando-se muitas oportunidades para isso, sob o pressuposto de que a boa utilização do tempo faria evitar a adoção, pelos jovens, de condutas consideradas censuráveis, pelo mundo adulto. O foco das políticas para os jovens dirigia-se, então, para a profissionalização, a ocupação produtiva do tempo livre e para a educação dos jovens, atendendo à lógica desenvolvimentista.
O jovem deveria ser incentivado para se tornar um adulto produtivo e com sentimentos comunitários. Nota-se, portanto, “[...] a construção social da juventude como geração a ser integrada à sociedade para a ela servir, priorizando-se na interação indivíduo e sociedade, um modelo ideal de sociedade, ou seja, a norma da sociedade produtiva” (CASTRO e ABROMOWAY, 2002, p. 22).
Segundo Abramo (1997, p. 30), a juventude aparece, neste período, em que os atos de “delinqüência juvenil” extrapolam os setores marginalizados e afetam os setores operários e de classe média, como uma categoria social potencialmente delinqüente, “devido à sua própria condição etária; e as culturas juvenis são sempre vistas como antagônicas à sociedade adulta. Firme nesta posição cabe ao Estado buscar medidas educacionais e de controle para conter a ameaçadora delinqüência”.
No Brasil, os preconceitos são visíveis; basta analisar o Código de Menores, de 1927, cuja proposta era criar mecanismos de proteção às crianças contra perigos e contra as ameaças que as fizessem se desviarem do caminho do trabalho e da ordem. Esse Código de 1927, orientou as políticas para os jovens até sua revogação, no final da década de 70. A tônica da tutela esteve presente também no Serviço de Atendimento ao Menor (SAM), criado em 1941. Posteriormente, “a substituição do SAM, em 1964, pela Política Nacional de Bem-estar do Menor (PNBEM), tendo como organismo gestor nacional a Funabem (Fundação do Bem-Estar do Menor)”, serviu também para consagrar a ideia do jovem, especialmente o excluído, como um ser infrator, que deveria ser reconduzido às malhas do sistema carcerário. “Ao Estado caberia o papel de intervir para garantir o modelo de integração defendido pela sociedade”, segundo Abramo (1997, p. 31).
Na década de 1960, influenciados pela revolução cubana e pelas críticas, em todas as partes do globo, à intervenção norte-americana no Vietnã, os jovens de classe média participantes do movimento estudantil assumiram claramente um perfil contestatório e desafiador ao sistema político (especialmente contra a instalação das ditaduras militares na maioria dos países da região). Os movimentos estudantis e de oposição aos regimes autoritários pautaram-se claramente pela crítica à ordem estabelecida e pela busca de transformações radicais na sociedade. A juventude apareceu então como uma categoria portadora da possibilidade de transformação profunda; e, para a maior parte da sociedade, portanto, condensava o pânico da revolução. O medo aqui era duplo: por um lado, o da reversão do ‘sistema’; por outro, o medo de que, não conseguindo mudar o sistema, os jovens condenassem a si próprios a jamais conseguirem se integrar em funcionamento normal da sociedade, por sua própria recusa (os jovens que entraram na clandestinidade, por um lado; por outro lado, os jovens que se recusaram a assumir um emprego formal, que foram viver em comunidades à parte, como formas familiares e de sobrevivência alternativas etc.). A juventude é entendida aqui não mais como uma fase passageira de dificuldades, mas como recusa permanente de se adaptar, de se “enquadrar” (ABRAMO, 1997, p. 31).
A resposta do Estado à mobilização e à maior participação político-social dos jovens foi a execução de uma contrapolítica ofensiva e violenta de controle policial, visando à total supressão desses movimentos. A imagem da juventude ativa dos anos 1960 e 1970 acabou passando por uma reelaboração positiva e foi apontada como modelo ideal de participação jovem transformadora, idealista, inovadora e utópica, que se vai contrapor à imagem estereotipada dos jovens dos anos 1980, como geração individualista, consumista, conservadora, indiferente e apática. “Uma geração que se recusava a assumir o papel de inovação cultural que agora, depois da reelaboração feita sobre os anos 60, passava a ser atributo da juventude como categoria social” (ABRAMO, 1997, p. 31).
Apesar dessa imagem formada sobre os jovens dos anos 1980, o Estado não cedeu em nada no exercício de seu papel controlador, especialmente ao lidar com jovens pertencentes ou ligados aos grupos surgidos em estratos populares (as gangues juvenis, de punks, as “galeras” de modo geral) e com jovens de vivência e expressão urbanas, principais vítimas da deterioração da qualidade de vida, que atinge principalmente as camadas populares e do empobrecimento da população latino-americana. A preocupação generalizada com aspectos e fatos (isolados) que associam a juventude à violência, ou às drogas, faz multiplicar as proposições normativas visando a disciplinar essas relações. As drogas, a violência e o desemprego passaram a ser considerados os problemas e as vulnerabilidades sociais máximas de nosso tempo.
Diante desse quadro, e a fim de confinar a juventude em uma moldura socialmente confortável, várias políticas de compensação social foram criadas. Ainda que nenhuma dessas políticas tenha sido catalogada como “exclusivamente para jovens”, o foco e a prioridade principal delas foram, especialmente, os jovens oriundos de setores “excluídos”, que apresentavam condutas consideradas delinquentes. O enfoque adotado contribuiu, assim, fortemente para manter, até os dias de hoje, o estigma problematizador da condição juvenil.


5. POLÍTICAS PÚBLICAS JUNTO AOS JOVENS BRASILEIROS

Na década 1990 e início da de 2000, a participação da juventude embora fragmentada, encontrou forças nas organizações do jovem do campo, da cidade e nos movimentos sociais. Frente a esses movimentos reivindicatórios e de contestação, o Estado passa a redigir políticas públicas para a juventude. O esforço generalizado, na década de 1990, para colocar a questão dos jovens na agenda dos governos, leva à criação de vários organismos na América Latina em geral (exceto Brasil e Honduras), organismos voltados exclusivamente para firmar uma política de juventude. A partir da atuação da Organização Ibero-americana da Juventude (OIJ), que alcançou status de organismo de direito internacional, a discussão da questão juvenil passou a ser incluída na pauta de reuniões de chefes de Estado da América Ibérica, e houve um movimento de construir novos e consolidar os existentes organismos nacionais de juventude, por meio da qualificação de recursos humanos, de criação de marcos conceituais e de mecanismos para implementar essas políticas e, com menor êxito, da busca de financiamentos diretos para as políticas de juventude (BANGO, 2003).
O caminho tomado para implantar políticas integrais de juventude tem sido tortuoso e torturante, “[...] tendo em vista a disposição setorial das políticas sociais e a primazia da lógica do serviço sobre a lógica dos sujeitos, em seu desenho” (BANGO, 2003, p. 46).
Por um lado, isso tem impedido a homogeneização dos propósitos desses organismos governamentais (também estaduais e municipais), sua capacitação decisória sobre políticas de juventude e, até mesmo, a participação delas nas instâncias intersetoriais de planejamento das políticas sociais. Por outro lado, faltam políticas que estimulem a participação dos jovens na construção de sua cidadania.
Conspira contra isso a crise das organizações juvenis tradicionais e seus mecanismos de coordenação e, em outros casos, uma inadequada estratégia de aproximação ao mundo juvenil não organizado e aos novos grupos juvenis existentes, devido a um enfoque demasiado “institucionalista da participação juvenil por parte dos governos” (BANGO, 2003, p. 47).
No Brasil, o tema da juventude, introduzido na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, ao ser encaminhada a Emenda Popular “Criança Prioridade Nacional”, resultou na criação, naquele mesmo ano, do Fórum Permanente de Entidades Não-Governamentais de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, que culminou com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990. O ECA, que muito contribuiu para garantir os direitos e deveres da criança e do adolescente, ao incorporar o conceito de cidadania, é considerado a mais acabada proposta do governo para as crianças e os adolescentes do país, pois responsabiliza a família, a sociedade e o Estado pelo cumprimento ou não dos direitos e deveres que lhes são cabidos. “O art. 5º assim determina, que nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei, qualquer atentado por ação ou omissão aos seus direitos fundamentais.” No entanto, observa-se que, “[...] embora tenha feito avançar de modo significativo a discussão sobre as políticas de juventude, o ECA jogou para uma zona nebulosa a discussão sobre os direitos dos jovens que atingem a maioridade legal” (KERBAUY, 2005, p. 201).
Apesar de tudo, nos últimos cinco anos o tema da juventude foi enfim inserido na agenda pública, no Brasil, especialmente no que diz respeito a problemas que mais diretamente afetam os jovens: saúde, violência e desemprego, e na consideração do jovem como protagonista ativo na implementação desses programas. Segundo Rua (1998), as políticas públicas em geral, e especificamente as políticas juvenis, no Brasil, são fragmentadas, estão à mercê da competição interburocrática, padecem da descontinuidade administrativa, agem em resposta a certas ofertas e não a demandas específicas, e revelam as clivagens entre a sua formulação e sua implantação. Acrescente-se a isso, o fato de que o governo não tem uma proposta clara do papel dos jovens no modelo de desenvolvimento adotado no país. Além da expansão das possibilidades de acesso ao sistema escolar e aos projetos voltados para segmentos específicos (jovens excluídos ou em “risco social”), torna-se evidente a ausência de canais de interlocução com os próprios jovens, destinatários de algumas das propostas, mas jamais tidos como parceiros relevantes em seu desenho, implementação e avaliação (SPOSITO, 2003, p. 66).
O senso comum, no entanto, continua representando a juventude de modo negativo, por meio de estigmas e de estereótipos. A depender do contexto sociopolítico e econômico do qual se originam, os jovens são considerados perigosos, marginais, alienados, irresponsáveis, desinteressados ou desmotivados, e cada vez mais relacionados à violência e aos desvios de conduta (os meninos de rua, os arrastões, o surf ferroviário, as gangues, as galeras e os atos de vandalismo).
Para Abramo (2000), a caracterização do comportamento dos jovens como estando propenso a um desvio no processo de integração social retoma elementos que foram comuns na avaliação feita na década de 50, ou seja, a formação de culturas juvenis antagônicas à sociedade adulta. Desta perspectiva, “O desafio é reorientar as políticas de juventude na direção de um modelo de jovem cidadão e sujeito de direito que deixe paulatinamente para trás enfoques como o do jovem-problema que ameaça a segurança pública” (BANGO, 2003, p. 48).
Em nosso país, há ainda um longo caminho a percorrer no sentido de transformar em políticas públicas as políticas de governo para a juventude: políticas públicas constituídas e implementadas a partir de um espaço público que contemple o Estado e a sociedade civil, abandonando a lógica das políticas estatais. Para tanto, torna-se necessário romper com a setorização das políticas de juventude, romper com a visão estigmatizada ou utilitarista da condição juvenil, estimular uma melhor relação entre a sociedade civil e os jovens, promovendo a participação dos jovens na construção de sua cidadania. Não se pode negar que os jovens se mobilizam em função de mudanças; embora seja uma minoria. Para Novaes (2000) é positiva a participação da juventude, pois “[...] através de atividades culturais e experimentos sociais, podemos trazer para a agenda pública a questão dos sentimentos e contribuir para mudanças de mentalidade [...]” (NOVAES, 2000, p. 54). A participação se caracteriza por uma força de atuação consciente, força pela qual os jovens “[...] membros de uma unidade social reconhecem e assumem seu poder de exercer influência na determinação da dinâmica dessa unidade, de sua cultura e de seus resultados” (MIRANDA, 2003, p.23).
Nos anos 1960 e 1970 a participação da juventude fez-se notar pelos movimentos de contestação, nos movimentos de contracultura, e nos anos 1980 podemos citar, por exemplo, o movimento social que ficou conhecido como as “Diretas Já”, que foi um marco significativo da participação da juventude; demonstrando ao Estado brasileiro a força, a determinação e a vontade de mudança dessa parcela da sociedade brasileira. Assim, a partir de 2004, o governo brasileiro cria a Secretaria Executiva de Políticas Públicas para a Juventude, e esta está vinculada ao Gabinete da Presidência da República.
No Congresso Nacional também foi criada Comissão Especial destinada a acompanhar propostas de políticas para a juventude. A partir de 1º de fevereiro de 2005, o Brasil dá passo significativo na construção efetiva das políticas públicas para a juventude. O presidente da República criou, nessa data, o Conselho Nacional de Juventude, a Secretaria Nacional de Juventude e o ProJovem, cujo objetivo primeiro é o de elaborar e implantar política voltada para a população de mais de 34 milhões de pessoas de 15 a 24 anos de idade. Essa iniciativa desencadeou outras em nível regional e estadual. O governo federal instituiu ainda programas sociais com ações voltadas para a juventude numa perspectiva intersetorial, tais como: Programa Saúde do Adolescente e do Jovem (Ministério da Saúde); Programa Especial de Treinamento (PET- Ministério da Educação), Prêmio Jovem Cientista (Ministério da Ciência e Tecnologia); ProUni; Proteção Social à Infância, Adolescência e Juventude, Cultura, Identidade e Cidadania e outros. Em 5 de setembro de 2007, o governo federal lançou programa unificando os já existentes: Agente Jovem, Pró-Jovem, Saberes da Terra, Consórcio da Juventude, Juventude Cidadã e Escola da Fábrica, em um único programa sob a denominação de ProJovem e pretende triplicar o número de atendimentos. O Programa ficará, então, dividido em ProJovem Urbano, ProJovem Campo, ProJovem Trabalhador e ProJovem Adolescente (PRESIDÊNCIA, 2008).
Com a unificação, o governo pretende atender, até 2010, quatro milhões de jovens com idade entre 15 e 29 anos, todos em situação de vulnerabilidade social, e possibilitar que eles sejam reintegrados ao processo educacional, recebam qualificação profissional e tenham acesso à cidadania e ao lazer são políticas para a juventude. Da mesma forma alguns Estados federativos, pressionados pelas ONGs, por movimentos estudantis, por grupos religiosos e por outros, iniciam a trajetória na construção de políticas que promovam a juventude (MTE, 2008).
Segundo os Ministérios do Trabalho e do Desenvolvimento, em 2008 destacam-se os avanços nos programas públicos de emprego e renda para os jovens, trata-se justamente de programas decorrentes da unificação no ProJovem. Cabe ressaltar que, os programas e projetos, em sua maioria, continuam, na prática, fragmentados nas diversas áreas de atividades públicas (LEON, 2008).
O Grupo Interministerial composto por 19 ministérios e coordenado pela Secretaria Geral da Presidência da República, criado em 2004, fez um levantamento dos principais programas federais voltados para esse segmento da população e realizou um diagnóstico da situação dos jovens brasileiros, definindo a Política Nacional da Juventude.


6. MERCADO DE TRABALHO OU EDUCAÇÃO?

Salienta-se que o declínio das oportunidades de trabalho, justamente com o aumento da violência e da pobreza sobre o expressivo contingente de jovens na América Latina está levando-os à ausência de perspectivas em relação ao futuro. A maioria dos jovens são vítimas de situações sociais precárias, sem possuírem as condições materiais básicas para suprir suas necessidades, e, portanto, para garantir a construção da própria cidadania.
Assim, as pesquisas e os debates interdisciplinares colocam o tema juventude na pauta das ciências no início do século XXI e incitam à imediata intervenção na realidade juvenil no continente latino americano.
As políticas públicas são improvisadas, sazonais e desarticuladas entre si. Decorre daí que “Há necessidade de um enfoque multidimensional devido à multiplicidade de fatores que interagem ‘formando complexas redes causais’” (WIRSIG; WERTHEIN, 2002, p. 9).
A violência sofrida pelos jovens é desencadeada pela vulnerabilidade social e pela ausência de acesso às estruturas de oportunidades disponíveis nos campos da saúde, da educação, do trabalho, do lazer e da cultura. Desse modo, as condições socioeconômicas desfavoráveis fomentam o aumento e da criminalidade. Nessa direção, observa-se a necessidade de que as políticas públicas sejam contínuas e permanentes e não como ocorre, fragmentadas e parciais. A Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana - RITLA (2008, p. 1), no terceiro Relatório de Desenvolvimento Juvenil, versão 2007,

[...] que realizou um extenso cruzamento de dados do IBGE e dos ministérios da Educação e da Saúde e chegou a algumas conclusões alarmantes. Por exemplo, segundo o relatório, nada menos que 53% dos 35 milhões de jovens entre 15 e 24 anos no país não freqüentam salas de aula. Além disso, 19% deles não trabalham nem estudam, uma porcentagem grande, que fica maior ainda quando se analisa apenas as classes mais pobres: 34%!

Nesse cenário é fundamental investir na socialização da juventude, no combate à vulnerabilidade social pela ampliação dos estoques de capital social, fator que requer mudanças na percepção dos gestores públicos para formular políticas sociais na construção de uma sociedade mais justa (WIRSIG; WERTHEIN, 2002).
Por um lado, muitos pesquisadores e gestores consideram fundamental postergar o ingresso dos jovens no mundo do trabalho para permitir a permanência na escola, favorecendo a aquisição de diplomas escolares de nível mais alto, que permitam acesso a postos de trabalho mais interessantes, tanto em termos de remuneração como de possibilidade de realização pessoal. Por outro lado, considerando os intensos processos de transformação produtiva e de mudança social pelos quais passam as sociedades contemporâneas, a maior escolarização tem representado uma promessa de ingresso a melhores postos de trabalho que nem sempre é garantida. (TOMMASI, 2005, p. 2).
Na pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, citada por Tommasi (2005, p. 3), o trabalho é apontado pelos jovens pesquisados como a segunda preocupação, logo após a segurança, esta como o primeiro problema que hoje aflige o Brasil. Nessa direção, “O trabalho é também indicado em primeiro lugar entre os direitos mais importantes para o cidadão, assim como entre os direitos que os jovens deveriam ter, na opinião dos entrevistados”. Apesar de os jovens apontarem o direito ao trabalho como preocupação central em suas vidas, entre gestores e pesquisadores não existe um consenso sobre o reconhecimento desse direito e a necessidade de criar uma legislação específica que regule a questão. Por um lado, já que as noções de juventude e de adolescência ainda estão bastante imbricadas, é difícil afirmar um direito que parece contradizer o que é afirmado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que proíbe o trabalho para os menores de 14 anos e que regulamenta, de forma bastante severa o trabalho para os menores de 18 anos (FREITAS apud TOMMASI, 2005, p. 3).
Os resultados da pesquisa sobre a juventude brasileira e democracia revelaram algumas facetas da relação dos jovens com o mundo do trabalho. Observou-se que 60,7% dos entrevistados informaram não estar trabalhando. Nota-se que, “[...] o sexo, a faixa etária e a classe social são todas variáveis que influem sobre a possibilidade de ingresso no mercado de trabalho: as moças, os mais jovens e os mais pobres estão numa evidente situação de desvantagem.”. Outro ponto de destaque é a influência do nível de escolaridade: Enquanto somente 33,1% dos jovens com ensino fundamental declararam estar trabalhando, esta porcentagem chegou a 52,4% entre os jovens com ensino médio completo ou mais. A cor da pele também é uma discriminante: enquanto 41,5% dos jovens brancos declararam estar trabalhando, essa porcentagem desceu para 37,9% entre os negros. Dos jovens que informaram não estar trabalhando, 62,9% disseram estar à procura de trabalho. As desigualdades de classe social ficam evidentes quando se observa que 69,5% dos jovens das classes D/E estavam procurando trabalho, enquanto 49,6% das classes A/B se encontravam na mesma condição. Também é significativo o número de jovens da classe C que afirmou estar à procura de trabalho um total de 65,6%. As desigualdades se confirmam quando o assunto é o tipo de escola frequentado pelos jovens: dos que estudaram em escola pública, 66,7% estavam procurando trabalho, enquanto apenas 42% dos que estudaram em escola privada se encontravam na mesma situação (TOMMASI, 2005, p. 4).
Neste panorama, destaca-se a procura frustrada por trabalho e os obstáculos a serem superados pelos jovens. Por mais que esses obstáculos estejam concentrados em determinados segmentos da população: os mais pobres, os negros, os moradores de favelas e de periferias urbanas e as jovens mulheres. Os jovens que conseguem colocação no mercado de trabalho, são expostos à precariedade: “30,5% são empregados com carteira assinada e 44,6% são empregados sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria ou autônomos sem vínculos com a Previdência Social.” Por sua vez, os jovens aprendizes “são 6,4% e somente 4,4% são autônomos com vínculo com o INSS. Os jovens empregados sem carteira assinada das classes A/B são 16,1%, mas o percentual chega a 33,8% entre os das classes D/E.” Nesse sentido, a pesquisa apontou vulnerabilidade nas relações de trabalho a que são submetidos os jovens das classes mais pobres (TOMMASI, 2005, p.3).
A situação dos jovens pesquisados com respeito ao estudo e ao trabalho é a seguinte: 25,9% só trabalham; 33,6% só estudam; 13,4% trabalham e estudam e um número expressivo 27,1% nem trabalham nem estudam. Segundo Tommasi (2005, p. 4), “[...] dentre os jovens que estiveram presentes nos Grupos de Diálogo (913), a faixa de idade entre 21 e 24 anos foi aquela em que se registrou o maior número de jovens ocupados em todas as regiões.” Neste contexto observou-se que “[...] nessa faixa etária as pessoas têm maiores oportunidades de ocupação do que em faixas mais jovens. Considerando a relação dos jovens participantes dos grupos de diálogo com o trabalho nas sete regiões metropolitanas investigadas e o Distrito Federal, a taxa de ocupação foi de 34%.”
As desigualdades regionais são significativas, pois, enquanto a região mineira registrou a maior proporção de jovens ocupados (54,9%), a região de Recife registrou a menor (27,4%). Nos Grupos de Diálogo, o trabalho apareceu entre as principais preocupações dos jovens. No Distrito Federal, em São Paulo e em Porto Alegre, ocupou o primeiro lugar entre os temas que mais preocupam os jovens; em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro e em Salvador apareceu em segundo lugar e, em Recife e em Belém, em terceiro lugar, atrás de violência e de educação. “Tudo que queremos é emprego!” Fala de uma jovem da Região Metropolitana do Recife (TOMMASI, 2005, p. 4).
Segundo Tommasi (2005, p. 4), sobre o que preocupa os jovens em relação ao trabalho, foram apontadas as seguintes variáveis: mercado de trabalho restrito; conseguir o primeiro emprego; a falta de qualificação profissional adequada e enfrentar preconceitos. “Uma reclamação recorrente é quanto à incoerência do mercado, que cobra a tão falada ‘prática profissional’ daqueles que estão justamente demandando a sua primeira oportunidade de emprego, evidenciando a insuficiência das políticas de incorporação dos jovens ao mercado de trabalho.”
Pode se observar no estudo de Tommasi (2005) que os jovens se mostram confiantes na possibilidade de as empresas ampliarem as oportunidades de emprego para eles. Sugerem o estabelecimento de parcerias e de convênios entre o governo e as empresas, e os incentivos fiscais aos empregadores para que abram postos de trabalho para os jovens sem experiência. Importante destaque está na confiança que sentem na solução das questões por parte do Estado, e na superação dos obstáculos advindos da falta de experiência e de qualificação e pela discriminação também que podem estruturar suas vidas e trabalho a partir do conhecimento.
Os jovens anseiam por qualificação profissional, e não levam em conta a reestruturação econômica e as mudanças nas formas de produção que influenciam fortemente sobre a diminuição das vagas e sobre a precarização das condições de trabalho. A demanda por mais e por melhor capacitação profissional foi central nas discussões durante os diálogos. O aumento das oportunidades de qualificação profissional e a adequação entre a oferta de qualificação e a demanda por trabalhadores qualificados existente no mercado foram reivindicações centrais nas falas dos jovens, que acreditam que seja possível regular melhor a oferta e a demanda por empregos. A importância de cursos mais direcionados à profissionalização, que complementem a formação escolar, evidenciou-se na Pesquisa de Opinião: 66,5% dos jovens entrevistados declararam participar de algum tipo de atividade de natureza extraescolar.
A maior incidência entre as classes sociais encontra-se em cursos de informática/ computação (44,1%), profissionalizantes (19,3%), esportivos (15,4%) e de língua estrangeira (11,6%), ou mesmo aqueles relacionados com atividades culturais (música, teatro, artes plásticas, danças e outras) que, segundo alguns jovens, também podem servir como cursos de profissionalização na área da arte e cultura. É menor, no entanto, a participação dos jovens mais pobres, dos negros e dos de baixa escolaridade nesses espaços de formação complementar. Essa situação testemunha que a desigualdade educacional se manifesta também no acesso às oportunidades de complementação formativa, oportunidades que se encontram disponíveis de forma mais abrangente e qualificada para jovens brancos e oriundos das classes de maior poder aquisitivo (TOMMASI, 2005, p. 4).
Sobre a demanda de trabalho, os estágios são apontados como estratégia de sobrevivência imediata, na tentativa de superar as exigências do mercado de trabalho. Essa oportunidade não é, no entanto, repartida igualitariamente entre as classes sociais, pois é accessível para os jovens de classe social mais elevada. Em todas as regiões os jovens verificaram sentimentos discriminatórios no processo de, na busca pelo primeiro emprego, sentimentos referentes à aparência e às praticas de racismo contra os jovens na sua forma de vestir e de se comportar. Na pesquisa “Perfil da Juventude Brasileira”, os jovens indagados sobre os principais conceitos associados ao trabalho, indicaram: necessidade (64%), independência (55%), crescimento (47%) e autorrealização (29%) (ABRAMO, BRANCO, 2005). Diante disso, no próximo item busca-se explorar as ações públicas relacionadas aos jovens, ações que, geralmente, são sem integração e sem continuidade.
Segundo Pereira (2007), o trabalho remunerado deixou de ser característica exclusiva da sociedade de mercado e tem se tornado também uma das principais formas de atuação social para a criação ou a reprodução de novas unidades familiares autônomas e independentes.
Isto se aplica, sobretudo, à faixa jovem da população com desejo de conquistar independência em relação aos pais, ou realizar a transição segura para a vida adulta com pleno acesso a trabalho remunerado, a educação, a saúde, a lazer e, ao menos minimamente, vida protegida da sanha de narcotraficantes. Acrescente-se também a necessidade de "transição segura para a vida adulta" com a constituição de novas famílias casando-se ou amasiando-se. Pesquisas recentes têm mostrado, no entanto, a existência de um desemprego estrutural e defasagem educacional que atingem os jovens, sobretudo, os das classes trabalhadoras, entre eles os de origem rural. Numa população de 33,85 milhões de jovens entre 15 e 24 anos no Brasil, 19% não trabalhavam nem estudavam em 2003. Quando se faz o recorte para os negros e para as mulheres jovens, esse percentual sobe para 21% e 26%, respectivamente (IBGE, 2003; PNAD, 2003; IPEA, 2005). Ainda outra pesquisa (Perfil da Juventude Brasileira) ─ encomendada pelo Instituto Cidadania, Instituto de Hospitalidade e Sebrae ─ revela que, entre novembro e dezembro de 2003, 32% dos jovens entre 15 e 24 anos já haviam trabalhado, mas atualmente estavam desempregados e outros 24% nunca haviam trabalhado, mas estavam procurando emprego. Passados três anos, já em 2006, os índices de desemprego entre os jovens não só permaneceram altos, mas também aumentaram em relação a 2003.
De acordo com o Dieese, em setembro de 2006, o desemprego entre os jovens era de 31,8%, o que corresponde a quase o triplo do existente entre as pessoas com 25 anos ou mais que é de 12,7%. Além disso, a grande maioria dos jovens não consegue conciliar trabalho e estudo. Cerca de 70,1% dos jovens ocupados, em São Paulo, não estudam (PEREIRA, 2007, p. 4). Pochmann (2007) observa que a quantidade de jovens desempregados em 2005 era cerca de 107% superior a de 1995. Nesse sentido, está armado um grande problema social, problema que exige ação imediata dos formuladores de políticas públicas, governantes e, por que não, de toda a sociedade civil (governos, organizações de classe, movimentos sociais, partidos políticos, igrejas, entre outros). É preciso combater fortemente o desemprego e viabilizar condições para que os jovens empregados também possam estudar e ter lazer.
Trabalho e autonomia: esses dois fatores estão na base de transição para a vida adulta entre os jovens. Se, no entanto, considerarmos aqueles altos índices de desemprego e a situação propícia que se cria para o envolvimento com o uso de drogas e de entorpecentes, bem como o retardamento na constituição de novas famílias autônomas, pode-se afirmar que um dos grandes problemas sociais para a juventude, hoje, é a dificuldade da transição segura para a vida adulta (PEREIRA, 2007, p. 10).
Procurando escapar dessa problemática, milhares de jovens, em todo o mundo, principalmente das áreas rurais e inclusive no Brasil, têm feito migrações em busca de trabalho e de melhores condições de vida. A intensidade dessas migrações é tamanha que a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que, em 2008, o número de habitantes das cidades será maior que o número de habitantes das áreas rurais. E onde irão morar os jovens migrantes? A ONU prevê que irão morar em favelas com habitações precárias, sem água tratada, sem saneamento básico, sofrendo altos índices de desemprego e/ou com empregos precários, incapazes de garantir-lhes a transição segura para a vida adulta.
Esse cenário se configura como um problema social que se acentua com as constantes reestruturações do capitalismo baseadas no uso predatório de tecnologias e em cortes de verbas para políticas sociais, bem como um problema de governos federais, estaduais, municipais, das associações em geral, entre outros grupos coletivos de pressão. Um ponto de partida é politizar a discussão sobre juventude e sua transição segura para a vida adulta nos grupos de jovens, nas escolas, nas associações, nas reuniões de bairros e de amigos, nas câmaras municipais, e torná-las prioridades nas agendas políticas municipais, estaduais e internacionais, criando melhores condições de vida no campo e na cidade.
Diante disto, o presente estudo pretende observar sua operacionalização diante da construção de desafios para as políticas públicas educacionais, em que é possível programar ações imperativas, relacionadas à vulnerabilidade, à violência e à exclusão da juventude no Brasil, visando a uma socialização política voltada para o incremento dos índices de capital social e de empoderamento.


7. EDUCAÇÃO E EMPODERAMENTO

Os setores dominantes da sociedade brasileira sempre se empenharam na negação do direito à educação à maioria da população, não só por não garantirem acesso à educação, mas também por preconizarem uma educação restrita aos interesses da elite.
As finalidades e os objetivos gerais da educação nacional estão expressos em leis específicas. A Lei Federal nº 4.024/1961, denominada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, foi posteriormente alterada pelas Leis Federais nº 5.540/1968 (que aborda especificamente o ensino superior), nº 5.692/1971 e nº 7.044/1982 (que alteraram as diretrizes e normas de ensino de 1º e 2º graus). A Constituição Federal de 1988 deu novas perspectivas ao sistema escolar e a seu funcionamento, sendo então promulgada, em 1996, a nova LDB, publicada como Lei Federal nº 9.394/1996. Depois, em 2001, foi publicado o Plano Nacional de Educação, que trata basicamente da gestão da escola.
Segundo o artigo 205 da Constituição Federal, a educação é direito de todos e dever do Estado e da família ─ será incentivada e promovida com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Conforme Costa (2005), a escola deveria funcionar como mediadora da interação social, uma vez que propaga valores de interação entre os alunos, sendo assim o local preferencial de ensino, embora esse possa ser realizado em múltiplos locais e meios. Apesar da existência de leis e de normas de atenção à juventude, percebe-se que as políticas públicas apresentadas para a juventude não são políticas da juventude e sim políticas para solucionar possíveis dificuldades, ou seja, para tratar de problemas que alguns membros dessa parcela da sociedade apresentam, e são políticas, em sua grande maioria, para conformar essa população às normas vigentes, sendo que a escola tem funcionado como instrumento eficaz dessa conformação.
Assim sendo, essas políticas são quase nulas, pois excluem os jovens do processo decisório/educativo e político. O que se propõe como política adequada é que a juventude deve não apenas fazer parte de uma política pública, mas também de participar, propondo, discutindo e ajudando a programar as políticas.
Assim, políticas públicas da juventude devem possuir componentes amplos e inter-relacionados, que não podem ser traçados de forma isolada, sob pena de não se produzirem de fato, pois “[...] as políticas públicas para os jovens, só se caracterizam como tal, se refletir as condições específicas da juventude, e advir de pautas que realcem a capacidade e a participação política dos mesmos” (ARAUJO, 2007, p. 62).
O processo de ensino/aprendizagem, nesse contexto, possui importante representação, pois deve ser compreendido na perspectiva da não-transmissão de um conhecimento especializado, do qual os profissionais da educação são detentores para uma população leiga, cuja vivência diária é desvalorizada ou ignorada. Não se deve impor o conhecimento de alguns, acreditando que a população venha a desaprender o que é vivido na prática cotidiana para incorporar o novo aprendizado.
A falta de educação não é um problema possível de ser solucionado individualmente, mas, se somam a ele elementos coletivos, técnico-científicos, respeito à cultura e ainda a necessidade de absorver o conhecimento ora exposto e incorporá-lo ao cotidiano.
Assim, trabalhar com a noção de que educação envolve o conjunto dos processos pelos quais os indivíduos se transformam em sujeitos de uma cultura, reconhecendo que existem muitas e diferentes instâncias e instituições sociais envolvidas com esse processo de educar, algumas delas explicitamente direcionadas para isso, enquanto que, em outras, esse processo educativo não é tão explícito e nem institucional (COSTA, 2005). Pode-se constatar que programas focalizados em temas variados, como drogas (inclusive álcool e tabaco), práticas sexuais desprotegidas, gravidez na adolescência, nutrição ou trânsito, etc. são muito eficientes em aumentar conhecimentos, têm alguma eficiência em mudar atitudes e, com raras exceções, são ineficientes na mudança de práticas relacionadas à saúde (MEYER et. alii, 2006, p. 4).
Conforme Meyer et alii (2006), as mudanças de comportamento são produtos muito raros do processo educativo já implantado e, mais do que isso, constata-se que as múltiplas dimensões que interagem nos ambientes onde transcorre a vida tornam muito difícil vincular diretamente as atividades da educação aos componentes que emergem do tempo. Para tal, observa-se que uma educação voltada para a ampliação da cooperação social poderia colaborar para promover índices favoráveis de capital social e de empoderamento nos jovens. O pressuposto essencial é o de que o capital social é gerado por redes de confiança, rede que proporcionam previsibilidade nas relações e promovem indicadores de empoderamento nos jovens.
Misztal (1998, p. 11) coloca que a confiança é uma condição necessária para se manter a ordem social. Assim, “a confiança pode ser definida como mecanismo de solução para o problema da cooperação”, além disso, cria condições para o desenvolvimento da solidariedade, da tolerância e da legitimação do poder. A confiança nos outros é importante para sustentar a ordem coletiva, pois pode produzir um sentimento de eficácia política na participação democrática.
As ciências sociais inicialmente abandonaram as noções de obrigações morais, assim confiança e solidariedade foram consideradas irrelevantes. “Mas o debate reaparece sobre a nova ordem industrial, na qual a confiança é valida como um recurso para aliviar o atomismo individualista da sociedade moderna” (MISZTAL, 1998, p. 1-2). O argumento central é que as regras de confiança entre comunidade e o governo são essenciais para a efetiva responsabilidade das instituições. Observa-se, também, que as teorias aliadas ao capital social revitalizam a ideia de sociedade civil como base na coesão social, pois o critério de confiança moderno tem uma racionalidade diferente dependendo das crenças morais de cada sociedade, que tem suas próprias bases de valores e de crenças culturais.
Analisa-se a confiança interpessoal que envolve os relacionamentos cotidianos e a confiança nas pessoas, envolvendo as relações com os membros da família, com amigos, com professores, com vizinhos, entre outros grupos de referência para os indivíduos. Por isso é mais difusa que a confiança institucional.
Por sua vez, a confiança institucional é relacionada à credibilidade das instituições políticas, econômicas e sociais. Ambas fazem parte da confiança social, que, para Durkheim, gera cooperação e alimenta mais confiança. A principal força que desencadeia o crescimento dos índices de capital social em uma comunidade pode ser verificada nas relações de confiança social. Estudos apontam , no entanto, a redução dos níveis de confiança em todo o mundo. Os jovens brasileiros apresentaram baixos percentuais de confiança. Nesse sentido, políticas públicas de intervenção no sistema educacional brasileiro podem contribuir para reverter esse quadro e promover indices positivos de capital social e aprimorar a governança.
Sabe-se, no entanto, que os principais agentes educacionais são os professores, pois são ao mesmo tempo responsáveis por uma mudança nos rumos da educação, assim como também são vítimas da própria dinâmica imposta pelo sistema e pela precarização do ensino público.
O conceito de empoderamento vem sendo utilizado para expressar a aquisição de uma consciência coletiva da dependência social e da dominação política, traça uma ponte entre o local e o global, ampliando o contexto de inserção do indivíduo para além da sua realidade/comunidade, articulando com noções mais amplas de participação política. O empoderamento traz, embutido em si, componente de transformação da realidade, pois é um processo que envolve elementos individuais e coletivos. Sendo assim, é a possibilidade de compreensão a respeito da realidade de seu meio social, político, econômico, ecológico e cultural, refletindo sobre os fatores que dão forma a seu meio ambiente, bem como sobre a tomada de iniciativas no sentido de melhorar a própria situação.
Assim, empoderamento abrange não somente participação, pois inclui tomada de decisão, inclui controle por parte de quem não detinha nenhum poder quanto às políticas que lhe diziam respeito, inclui sair da condição de objeto de uma política para assumi-la de uma posição crítica e ativa ao longo do processo decisório.
É preciso mobilizar o jovem e oferecer a ele condições para uma atuação construtiva, mobilizando-o para a verdadeira cidadania, pois empoderamento traz consigo os componentes de transformação da realidade, sendo então um processo que envolve elementos individuais e coletivos.
Dessa forma, cidadania então pode ser compreendida como produto de histórias sociais protagonizadas pelos grupos sociais. Ela é entendida abrangendo os direitos civis do cidadão como portador de direitos e de deveres, além de considerá-lo criador de direitos e de deveres, condições que lhe possibilitam participar da gestão pública.
Cidadania demonstra uma tomada de consciência da população que vem, pouco a pouco, ganhando terreno, adquirindo uma postura renovada, saindo da posição daqueles que recebem soluções/respostas prontas do Estado para uma nova realidade, onde o cidadão, de forma responsável e consciente, participa da estrutura da realidade; buscando existência digna para todos, com trabalho, lazer, educação, saúde, meio ambiente equilibrado, entre outras necessidades humanas. “O povo tem direito, numa democracia de verdade, de participar do governo, e não apenas de esperar os resultados dele” (MOTTA e DOUGLAS, 2000, p. 54).
O exercício da cidadania é facilitado pela existência de instâncias que promovam a defesa dos interesses do cidadão (jovem) nas relações com órgãos públicos, privados e ONGs. Desta maneira deve-se pensar em uma educação para a cidadania, onde a socialização das informações, o envolvimento na tomada de decisão dentro de um processo de diagnóstico, planejamento e a execução dos projetos e iniciativas sociais são fundamentais.


8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A maioria dos jovens busca, na formação profissional, no trabalho e na renda, condições para o mínimo de melhoria da qualidade de vida, assim como, paradoxalmente, a própria busca por trabalho exige dispor de recursos mínimos para transporte e para alimentação, que nem sempre estão ao alcance dos jovens. Outra dificuldade dos jovens que trabalham é o descumprimento da legislação trabalhista: trabalho mal remunerado, sem carteira profissional assinada, falta de pagamento das horas extras, entre outros. Quanto ao trabalho voluntário, alguns jovens reconhecem que o mesmo pode ampliar as possibilidades de contato e de acesso ao mundo do trabalho, porém outros explicitam claramente que a existência do trabalho voluntário é um obstáculo para a ampliação dos postos de trabalho, ou seja, voluntários estariam ocupando vagas de trabalhadores remunerados.
Como para a maioria dos jovens o trabalho representa uma vida melhor, compreende-se a busca excessiva por oportunidades de trabalho e ainda sua preocupação quanto ao desemprego juvenil, que é três vezes maior, comparado com o desemprego do restante da população ativa. O desemprego aflige os jovens, pois interrompe um percurso de conquista progressiva da autonomia, da transição para a vida adulta e da emancipação econômica.
Quando os jovens se deparam com a realidade excludente do mercado de trabalho, dão início a um processo doloroso de desmascaramento de algumas promessas de inclusão, pois percebem que a conquista de uma escolaridade longa (avanço em relação à geração de seus pais, e ainda os programas que objetivam postergar o ingresso dos jovens no mundo do trabalho) não surtem os efeitos esperados da abertura efetiva de vagas para eles.
Segundo Nazzari (2006b), a falta de engajamento dos jovens em movimentos sociais, estudantis e na comunidade, essa falta de engajamento faz com que eles não se sintam eficazes para demandar políticas públicas que os beneficiem. Essa falta de engajamento faz, também, com que eles não assumam sua identidade nem se transformem em sujeitos da construção social de sua realidade. Nesse sentido, a escola pode estar falhando, enquanto proposta de empoderamento dos jovens, comprometendo a possibilidade de construir normas e crenças de valorização da cidadania, bem como pode não estar contribuindo para a geração de identidades coletivas sólidas entre os alunos e a instituição (BAQUERO e BAQUERO, 2005).
Existe, contudo, uma grande parcela de jovens que também necessitam de políticas públicas para si, pois seu espírito criativo e dinâmico é a garantia da transformação social. Toda a energia própria desse período da vida precisa ser potencializada, a fim de provocar as mudanças significativas em suas realidades, ou seja, os jovens necessitam ser empoderados por meio de políticas públicas afirmativas.
Os resultados das pesquisas não são alentadores no que diz respeito aos jovens e ao mercado de trabalho no Brasil, no entanto os jovens continuam aguardando uma resposta do Estado para suas demandas. As imagens que os jovens têm das instituições públicas e de seus representantes, preponderantemente negativas, não se constituem, porém, em elementos que nos deem segurança de que o futuro será melhor para eles.
Intersetorialidade significa ações articuladas e coordenadas, utilizando e disponibilizando os recursos existentes em cada setor de forma eficaz, direcionando-os para ações que obedeçam a uma escala de prioridades estabelecidas em conjunto. Recursos dispersos e aplicados, sem um planejamento global, são mais facilmente desperdiçados ou utilizados por grupos isolados para seus interesses particulares. Esta é uma premissa básica da política consistente de atenção à juventude. Enquanto os diferentes setores do governo e da sociedade civil agirem isoladamente, não se terá uma política efetiva para a juventude.
Nessa direção, enfrentar o desafio de se posicionar sobre os mecanismos que são fundamentais na promoção do protagonismo dos jovens brasileiros apresenta-se como ferramenta essencial para a superação dessa condição da juventude presente.
Assim, faz se necessário fomentar ações coletivas nas escolas, nos grupos de convivência e também na família. Tais esforços levam à constituição de redes baseadas na confiança recíproca, na solidariedade e na constituição de raízes que poderão, em longo prazo, ser importantes na configuração de uma cultura juvenil igualitária e libertadora.


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